Prólogo: Prodígio

Silvik ajeitou os bonecos de palha para o treinamento. Carla observava inquieta, era seu primeiro treinamento com o guerreiro que tinha fama de muito exigente.

– Escolheu a arma garota? – questionou guerreiro ajeitando o ultimo boneco.

Carla se apresentou com uma lança longa. Silvik observou, era muito incomum novatos escolherem armas de hastes longas: se perdia a opção de se proteger com um escudo e não tinha o mesmo charme de uma espada cara.

– Por que não uma espada? – questionou Silvik.

Carla olhou a ponta da lança, e caminhou em volta do guerreiro a empunhando.

– Sou a recruta mais baixa daqui. Meus braços são curtos e uma espada me dá alcance menor que a maioria. A lança me da esta vantagem – ela olhou a ponta da arma novamente – Observei que três a cada soldados observam a ponta da arma antes dos olhos do oponente. A ponta da lança fica muito longe dos meus olhos, isto me dá vantagem para que não antevejam meu ataque.

Silvik não sabia o que dizer, não era uma resposta que esperava.

– É seu primeiro dia mesmo? – perguntou ele.

 

* * *

Endon pediu para os cavaleiros pararem. Apenas Ruyrk tinha problemas para acalmar o animal, os demais obedeceram. Carla saltou da montaria e foi até Endon.

– Que cê tá fazendo – perguntou Qorti para ela, que parecia não se importar.

Ela chegou ao lado do Andarilho que investigava uma mancha de sangue no solo do pântano. Ele tocou o sangue e cheirou.

– É de morto – disse ela.

– O que? – indagou ele se surpreendendo por ela não ter ficado na montaria.

– O sangue é quase negro. Em pessoas vivas ele coagula. Um sangue dessa espessura deveria estar morto a meses. Mas tem chovido muito nesta estação, seria impossível haver sangue velho aqui a tanto tempo.

Endon olhou par ela com curiosidade, embora tivesse percebido que aquele sangue era vampirico, gostaria de ver onde a menina chegaria.

– o que mais?

– Bem – continuou ela – Alguém sangrando assim deixaria rastros. Mas não há pegadas depois do arbusto.

– Ele poderia ter seguido por dentro do arbustros mato a dentro? – ele a tentou.

– Não acredito – disse ela – Os galhos são finos e seriam quebrados com facilidade. Eu acho que o que deixou esta marca de sangue voou. E isto explica aquela mancha de sangue naquele galho – ela apontou.

Endon olhou o galho. Vampiros voadores eram os piores. Ele gritou para os homens retornarem o forte, esta noite o andarilho iria caçar.

– Parabéns menina – disse ele – Agora volte com os demais.

Carla resolveu não abusar da sorte e obedeceu.

 

* * *

Stillgar estudava alguns livros antigos. Era tarde da noite e a chuva era torrencial. Uma luz foi avistada por ele vindo das escadarias. Ele olhou em sua direção e viu a menina Carla chegando.

– Medo do temporal? – debochou o mago.

– Não, eu ate gosto do temporal – respondeu ela – Vim pegar um livro novo.

De todos os recrutas de Hikan, Carla era a única que usava a sua biblioteca. Stillgar tentava esquecer que ela era filha de Beckya, mas era impossível, a menina tinha muito da mãe, e ainda mais do pai.

– Por que o senhor estuda tanto? – perguntou ela olhando por cima do ombro dele.

– Preciso estudar. Tenho que planejar aprimorar a minha magia para estar a frente dos meus inimigos.

– Você tem inimigos.

— Sim seu pai é um deles — pensou ele – Não. Modo de falar apenas.

Ela sorriu para o mago. Gostava dele.

– Você estuda para fazer aquelas chamas que explodem?

Ele riu.

– Claro, mas magia não é apenas fogo e raios. Na verdade um mago experiente possui poder para muito mais que causar danos, um mago experiente pode se aproximar dos deuses. O céu seria o limite.

Ela olhou curiosa para ele.

– Então você poderá fazer tudo, desde que estude? – perguntou ela.

Stillgar apenas concordou sorrindo. Carla resolveu sair para não atrapalhar. Pegou seus livros e começou a descer as escadas, e então retornou.

– Senhor Stillgar…

– Sim Carla – falou ele sem tirar os olhos dos livros.

– Quando o senhor ficar poderoso e forte, e poder fazer magias maiores – ela olhou para o chão encabulada – Se o senhor tiver um tempinho… O senhor pode descobrir quem é minha mãe?

Stillgar parou.

– Claro – falou com a voz embargada.

Carla sorriu ingenua e disse boa noite e desceu as escadas correndo e alegre. Stillgar olhou para o espelho, como se procurasse entender o que estava se tornando. Seria aquele o caminho que Walter teria querido para ele? Era tarde demais? Talvez fosse preciso se livrar da menina…

 

* * *

Dalmerith acabou o treinamento e cumprimentou Silvik. O guerreiro deu sinal para ele descansar. O jovem príncipe de Alísios sentou-se num dos bancos de pedra e viu a menina Carla sentada lendo um livro.

– Você ler gosta – ele parou respirou fundo – Você gosta de ler não é?

– Acho que sim – respondeu ela sem tirar os olhos do livro – Pelo menos mais do que conversar.

Dalmerith engoliu a seco.

– Eu tenho me saído bem nos treinamentos dos recrutas – contou ele – Ouvi dizer que entre os adolescentes você tem ido bem também.

– Você também é adolescente – respondeu ela – E eles tem medo de te machucar por que és de berço. Ninguém quer machucar um príncipe.

Dalmerith não gostou da franqueza dela. Mas decidiu não desistir.

– Pode ser. Mas é por isto que estou aqui e não em Alísios.

Ela parou e olhou séria nos olhos dela. Ela tinha um olho meio azul e meio verde e o outro completamente negro. Era o olhar mais lindo que ele já havia visto.

– Pode ser – respondeu ela saindo.

– Eu posso vê-la de novo – perguntou ele ficando de pé e apreensivo.

Carla se virou e falou séria para ele.

– Claro! – ela deus as costas e falou – A não ser que fiques cego.

Ele riu. E se sentou olhando para menina caminhando. Carla andou devagar e sorriu, sabia que ele estava olhando.

 

* * *

Hikan chegou no templo e viu Harshepu rezando ao lado de Carla. A menina era uma das poucas que vinha para o templo sem ser obrigada. O paladino, esperou o termino do ritual. A sacerdotisa olhou para Carla e falou:

– Certo! Agora faça seus pedidos.

– Brigith, ilumine os caminhos de Endon, para que ele possa cuidar de outras crianças como eu – disse ela respirando fundo – Que Silvik não se zangue de eu ter acertado aquela lança em sua perna. Que Hikan possa nos proteger das trevas. E que o Stillgar seja feliz… e… – Carla parou e olhou para Harshepu com vergonha.

– Pode falar menina – encorajou a sacerdotisa.

– Que – Carla tocou a barriga de Harshepu – você não esqueça de mim quando sua criança nascer…

Olhos de Harshepu enxeram-se de lagrimas e ela abraçou a menina com força.

– Nunca! – disse ela – Nunca!

 

 

 

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Prólogo: a Dama e o Vagabundo

Dalmer segurava  a barriga como se fosse perder as vísceras por descuido. O ferimento causado pela criatura demoniaca era quase que mortal. Escorado na parede ele podia ver seus homens sendo dilacerados um a um. Fenrish se preocupava mais em proteger Miner do que atacar o monstro.

Foram atacados de surpresa no desfiladeiro vermelho. Estavam preocupados com bandoleiros desgarrados e nunca imagina tal terror: uma criatura duas vezes maior que um urso, corpo musculoso e quadrúpede. Tinha uma causa grossa com três espinhos de meio metro cada, na ponta. E para completar seu horror, ele tinha três cabeças enormes de tigre, capazes de engolir uma cabeça humana em uma mordida.

Scrash Nivy era como o chamavam.

– Dal! – gritou Miner correndo na direção do irmão e tentando verificar o tAmanho do ferimento – Deixa eu ver…

– Pare! – disse ele a empurrando e olhando para Fenrish – Tire-a daqui!

Fenrish concordou com um olhar, mas antes que chegasse em Miner, o demônio saltou á sua retaguarda e bateu com os espinhos em sua segunda costas com ferocidade.

– NÃO! – gritou Dalmer.

O demônio ergueu a cauda com Fenrish Ainda preso a ela e balançou, como quem tenta se livrar de merda na bota. O corpo do guerreiro caiu ao chão imóvel.

– Fuja Miner! – gritou Dalmer tentando se erguer.

Miner não fugiu. Encarou o monstro empunhando sua espada e varinha. Encarava-o com coragem falsa, e Scrash balançava-se como um gato prestes a devorar um camundongo.

Fuja menina, não coloque-se entre Sracsh Nivy e suas presas.

– Nunca!

Miner balançou a varinha e disparou dois dardos flamejantes no corpo do demônio, que pareceu não sentir nada. Scrash respondeu jogando uma baforada de Fogo da cabeça central: as chamas foram muito rápidas para que Miner esquivasse, mas rapidamente ela conseguiu conjurar um escudo de gelo para se proteger. As chamas queimaram o escudo que derreteu chegando a queimar o braço esquerdo dela.

A garota deixo a espada no chão para apertar o braço ferido. Seu treinamento era dado com ótimos professores, mas nenhum lhe ensinou a dor.

– Que seja! – disse a criatura – Faz séculos que não provo carne de princesa…

Uma seta foi lançada na pata da criatura, cravando fundo, mas ainda sem mostrar muita dor.

– Sabe que é super valorizada? – disse Aldresh recarregando a besta – Plebeias são melhores – ele deu um sorrisinho para Miner e piscou – Na maioria das vezes.

– Quens pensas que é para colocar-se entre Scrash Nivy e sua presa – o demônio arrancou a seta com uma mordida de uma das cabeças.

Aldresh riu sarcástico.

– Mestiço sujo, Scrash Nivy vai lhe ensinar…

– Espere – disse Aldresh esticando a mão para frente – Um demônio falando mal de Aldresh, não é coisa que Aldresh deixa passar – ele parou e começou a rir – Sério cara eu não consigo falar de mim mesmo na terceira pessoa.

Scrash respirou fundo e preparou-se para atacar o ladrao, mas novamente Aldresh ergueu a mão para frente e novamente o demônio parou.

– Uma duvida, sério mesmo! Para qual das cabeças eu olho?

As palavras do mestiço irritavam o monstro.

– Achas mesmo que pode confundir Scrash Nivy com estas palavras de protelação?

– Na verdade acho sim. Mas não quero confundi-lo. Apenas ganhar tempo – Aldresh olhou para cima do desfiladeiro – Tá demorando! – gritou ele.

No alto do desfiladeiro Rontaros empurrou uma gigantesca pedra que caiu sobre o demônio, causando um grande ferimento. Aldresh correu até Miner:

– Fuja!

– Não! Meus irmãos – disse ela – eu posso ajudá-lo.

– Não vejo como – respondeu olhando para o demônio atordoado – preciso acertar os olhos dele com as adagas, mas ele é muito grande.

Miner olhou para as pedras no chão.

– Corra sobre as pedras!

– Como?

– Vai! Gritou ela.

Aldresh viu uma pedra pouco maior que seu pé se erguer a sua frente. Sem pensar muito ele correu e pisou na pedra saltando para cima. Miner começou a levitar pedras a frente dele, que com muito agilidade escalava os minerais como uma escada. Quando Scrash se recuperou viu Aldresh a dois passos de sua cabeça principal: o ladrão arremessou duas lâminas em seus olhos.

Os rugidos do demônio ecoaram no desfiladeiro e a criatura se desfez sendo enviada de volta para Stambrïlho.

Aldresh fez sinal positivo para Rontaros, e depois se dirigiu par Miner.

– Gosto do modo como pensa menina – falou sorrindo guarda do as armas.

– Você é ágil, facilitou para mim – respondeu ela.

Dalmer resmungou algo e ela correu para acudir o irmão. Aldresh pegou uma poção da algibeira e derramou no ferimento.

– Ele vai ficar bem.

Aldresh se levantou, mas parou quando Miner segurou seu braço e o beijou no rosto: – Obrigada – ela sorriu.

Ele assentiu e saiu para encontrar Rontaros. O guerreiro começou a contar como vira a cena lá de cima:

– … nem acreditei quando ele desapareceu. Nunca tinha visto magos fazendo aquilo, eles sempre pensam em Fogo e raios, mas a garota pensava – Rontaros parou olhou para o amigo – Que houve piá?

Aldresh olhou rapidamente para o amigo, o pensamento estava longe:

– Desculpa o que estava falando?

Rontaros riu.

– Nada amigo – ele bateu no ombro dele – Por hora nada.

– Sabe – falou o mestiço olhando para trás e depois continuou caminhando – Me sinto estranho…

Rontaros sorriu.

– Todos nós amigo – Rontaros riu e abraçou o rapaz pelo pescoço e lhe deu cascudos – Todos nós…

 

Prologo: Épico

– Claymornianos nunca recuam – gritou Wesnayke para os seus doze comandados – Aqueles que recuam temem a morte e não merecem viver; Nós avançamos em direção a guerra.

Os comandados ouviam atentos de olhos fechados, alguns orando para Sarah outros prometendo mais uma vitória para seus antepassados.

– Claymornianos não perdoam – gritou Wesnayke novamente – Aqueles que perdoam demonstram fraqueza; Nós matamos e livramos o mundo dos fracos e hereges.

Os soldados puxaram suas espadas e bateram em seus escudos.

– Claymornianos não atacam apenas com as armas. Nossa arma é o coragem, nossa armadura o coração e nosso escudo a bravura – ele parou e gritou mais alto.

Acima da muralha de Azuleno, Aradiana Luthenkall ouvia os gritos de Wesnayke o urro dos seus homens. O exercito incendiava com o grito de seu general e o coro dos Treze. Rapidamente ela passou o olhar pelos seus soldados e pode ver que alguns tremiam. Outros suavam frio diante da batalha eminente. Não podia culpá-los, não havia monstro maior em Digared que um exercito claymorniano.

– Homens e mulheres de Azuleno! – gritou Aradiana para seu exercito – Do outro lado estamos para enfrentar o maior exercito de Digared e talvez seu melhor general – as palavras confundiram os soldados, os generais sempre buscavam incentivar seus homens, nunca elogiar o inimigo – Reconhecer o valor de nossos inimigos não nos torna mais fracos. Mas nos torna mais sábios! Haverá um dia em que eles dominaram o continente, derrubaram nossa muralha e escravizarão nosso povo – ela parou e ergueu a espada – Mas eu sei que este dia não é hoje. Pois quando este dia chegar eu não estarei aqui e nenhum de vocês! Eu vejo em seus rostos a vitória, a coragem para defender nosso reino, defender nossas crianças e nossa liberdade!

Os soldados de azuleno gritaram alto desconcentrando alguns dos claymornianos do outro lado.

 

No alto da colina Cahethel Dimitriel e Traumat Chamouth observavam em seus cavalos os urros dos soldados. Os dois irmãos de guerra estava lutando em lado opostos, e era muito provável que nesta tarde eles se enfrentassem na guerra.

– Ela sabe envolver os soldados – comentou Cahethel.

Traumat concordou com um sorriso.

– Ela será uma grande rainha – continuou Dimitriel.

– Se não morrer em uma guerra antes – ponderou Traumat.

– Ela pode morrer de gripe no final deste inverno ou com uma picada de serpente. Tanto faz – disse Cahethel – Mas lutar a frente de seus homens a torna um ídolo a ser seguido e respeitado.

– Sente falta disso em seu rei?

– Estou preso a um juramento, não devo dizer se me orgulho ou não de meu rei. Apenas fazer aquilo que prometi.

– Matar riornianos e azulenos – falou Traumat.

Cahethel sorriu sem emoção. Olhou para o sol  nascendo e o céu sem nuvens.

– É um lindo dia para cavalgar – suspirou Dimitriel – Para passear com uma garota, correr com as crianças, beber com um velho amigo – ele olhou sério para o companheiro – Mas não é um lindo dia para uma guerra.

Traumat assentiu. Colocou o elmo e moveu o cavalo para a direção do seu exercito.

– Não há dias bons para se matar ou morrer velho amigo. Há apenas dias assim.

Cahethel concordou. Colocou o elmo e voltou para seu exercito.

* * *

As trombetas soaram durante a batalha, havia corpos por todos os lados. Wesnayke gritava para que seus homens avançassem. Os seu esquadrão de elite era formidável e ganhava tempo para arrumar o flanco das centúrias de Tricinia atacados por Akille Chamouth.

– Toque a corneta – gritou ele.

A corneta foi tocada três vezes e a cavalaria de Cahethel avançou sobre os riornianos de Akille C. que foi obrigado a recuar. Duas centúrias foram perdidas para Traumat e mais uma para Cegalia. Mas ele havia avançado muito com seus homens, causando danos poderosos. No entanto ele sentia falta do exercito de Prata de Aradiana. Ele sabia que podia perder esta guerra para ela, assim como Azhaela havia perdido oito anos antes.

A trombeta de aviso ecoou e do alto de seu cavalo Wesnayke viu a bandeira com o emblema de Luthenkall, as armaduras brilhantes de prata e sua general avançando a frente deles. Rapidamente ele gritou para que seus homens o seguissem e assim eles avançaram a frente abrindo espaço na batalha para encontrar seus inimigos.

Aradiana atacava e liderava. Seus homens ganhavam os espaços perdidos pelas centúrias anteriores. Era uma tática de seu pai Vhalshirom, dar território, atacar seus flancos, cansa-los e entrar  pelo meio abrindo os exércitos. Mas alguns de seus homens já avisavam que os Treze se aproximavam, e com eles certamente Wesnayke. Ela se preparou.

– Você não está sozinha – disse Traumat e Akille Chamouth descendo de seus cavalos.

Wesnayke surgiu no meio do exercito de Claymor batendo sua espada ensanguentada no escudo. Ela encarou o claymorniano com fúria.

Do alto da muralha, Périckles puxou uma flecha com ponta vermelha, mirou no olho esquerdo de Wesnayke e disparou. O projétil viajou o campo de batalha, mas há menos de cinco metros do alvo foi interrompido por outra flecha.

Aradiana arregalou o olhou diante da cena. Primeiro surpresa pela perícia do atirador, depois decepcionada com o irmão que tentara vencer a guerra de forma tão covarde. Wesnayke sorriu e piscou para Périckles e depois olhou para trás: Itilia com seu arco encarava o arqueiro de Azuleno. Ela fez sinal para ele vir para o combate, mas Périckles se escondeu.

Wesnayke encarou o trio rayvodio. Aradiana a frente girou a espada e bateu em seu escudo. Traumat a direita e Akille a esquerda. O claymorniano encarava os três com desdem.

– Só tem vocês? – zombou ele.

Aradiana saltou, girou a espada e atacou Wesnayke que aparou rapidamente. Akille avançou e soltou a espada no flanco, mas o escudo do claymorniano bloqueou e empurrou o rei de Draema para trás. Traumat chegou estocando, mas Wesnayke encolhey o corpo e a lâmina raspou em sua armadura.

Os claymornianos gritaram felizes ao verem seu general encarando os três melhores guerreiros inimigos.

Akille atacou com força, a espada foi desviada pela de Wesnayke, Akille tentou novamente, mas rapidamente o inimigo esquivou girando e usou o escudo para bater nas costas de Akille Chamouth, que caiu no chão. Traumat aproveitou a guarda aberta, pelo ataque com o escudo, e tentou dar uma estocada com a espada, mas Wesnayke encolheu o corpo, e quando o braço do agressor passou por baixo do seu, ele o fechou, segurou seu punho na axila e cabeceou o rosto de Traumat. O riorniano cambaleou para trás com o elmo quebrado e Wesnayke girou o corpo para atacar com a espada na direção do pescoço dele, mas Aradiana saltou na frente e o bloqueou com o escudo.

Viu-se uma faísca com o atrito da espada de Wesnayke no escudo de Aradiana. Ele jogou a espada na direção dela, que aparou protegendo o tronco. Ela respondeu com um ataque lateral, mas o escudo dele novamente fechou a guarda.

Traumat e Akille se levantaram. Tricinia saiu do meio do exército e jogou o chicote na direção na direção de Traumat que ainda estava tonto. Akille pulou na frente, defendeu a chicotada com o bracelete de aço. O laço enrolou em seu braço e ele puxou com força fazendo ela vir para frente em sua direção. Com um forte golpe ele bateu com o escudo no peito dela fazendo-a recuar e soltar o chicote.

Tricinia levantou e puxou as duas espadas. Olhou séria para Akille que a encarava com ódio. Traumat se recuperou e viu Cahethel chegando.

– Pega ela que eu encaro Dimitriel – ponderou Akille.

– Não – Traumat jogou o elmo no chão – Deixa ele comigo, cuida da vadia.

Wesnayke saltava na ponta dos pés com a guarda aberta na frente de Aradiana. Ela olhava séria, mantinha o escudo erguido a frente do corpo e a espada para frente em cima.

– Esta é a menina que venceu os melhores guerreiros? – gritou ele – Não estou impressionado.

Ela empurrou o escudo para cima, ele bloqueou com o próprio escudo. Rapidamente ela desceu a espada na direção do ombro, mas uma leve esquiva a fez passar reto para o outro lado. Apressadamente ela se virou para ele erguendo o escudo e a espada, fazendo novamente sua posição defensiva. Enquanto isto Wesnayke apenas pulava de pé em pé a sua frente.

Périckles olhava do alto da muralha, assim que espiava uma flecha zunia na sua direção. Itilia era muito precisa, e era impossível para ele chegar para atacar sem receber um projétil no peito. Ele havia ordenado que outros arqueiros se aproximassem, mas ela havia matado oito deles já. E nenhum deles dera tempo para que ele chegasse na posição de contra-atacar.

Tricinia e Akille se encaravam. Ela sorria maliciosa para o rei de Draema. Traumat e Cahethel bateram as espadas em sinal de respeito. Wesnayke dançava na frente de Aradiana Luthenkall. Enquanto Itilia mantinha Périckles preso dentro de sua muralha.

E já passava do meio dia.

(continua)

Prologo – Riquesas

Endon estava deitado na cama da taverna Baforada de Estengard. Se espreguiçava ainda sonolento, mas sem ressaca, estava se acostumando as noitadas. Ilita saiu voltou com uma bandeja de queijos, salames e pão fresco.

Ele sorriu. Estavam juntos a quatro meses. Ela era jovial, lindíssima e esperta. Tinha um astral peculiar e fazia todos os dias serem intensos, como se fossem os últimos dias da sua vida.

– Assim você vai acabar me mimando – disse Endon com o um sorriso.

Ela apenas sorriu e sentou-se ao seu lado na cama.

– Esta é a vida de um andarilho? – perguntou ela – Viajar de reino em reino, conhecendo lugares.

– Na verdade geralmente costumo ficar longe dos reinos e mais perto dos animais – respondeu ele.

Ilita fez uma careta:

– Então sou uma andarilha urbana – respondeu ela mordendo o queijo – Não troco esta vida de serviço de quarto por nada neste mundo.

– Tu és uma menina acostumada ao luxo…

– Nem sempre fui assim querido – disse ela – Eu sou saudidia, nasci no pior reino do mundo. Nem se pode chamar aquilo de reino: Napoesh. Fui vendida como escrava e escapei quando tinha sete anos. Vaguei pelas ruas, aprendi a roubar e a me virar sozinha. O luxo é apenas uma promessa de nunca mais viver dentro de uma lixeira para me sentir quentinha e protegida.

– Eu sinto muito – disse ele – Eu não queria…

– Esqueça – disse ela – As vezes acho que eu deveria ter um dever com aqueles que passaram pelo que passei. Mas não sei como poderia.

 

– Endon? – disse Hikan tirando o andarilho dos pensamentos do passado – Onde estava amigo?

O mestiço sorriu e balançou a cabeça como se estivesse afastando os pensamentos.

– Do que estávamos falando? perguntou ele.

– Silvik falou que compraria uma taverna com seu dinheiro – respondeu Hikan – E eu perguntei o que você pretendia fazer com o dinheiro e aí você começou a vijar – Hikan começou a rir.

– E ficou com este sorriso estranho – disse Silvik.

Endon sorriu e deu um soco no ombro do guerreiro.

– Bons momentos alegram o presente, mas entristecem o futuro eminente meu amigo sonhador – respondeu Endon – Respondendo tua pergunta novo nobre amigo: vou montar um orfanato.

Hikan ergueu a taça de vinho para brindar.

– Conte comigo Endon Andarilho – disse o paladino – É um nobre destino para seu dinheiro.

– Espere – Silvik interrompeu – Endon vai fazer um orfanato, Hikan um forte para seus seguidores. Só eu que vou gastar com o que realmente importa?

– O que realmente importa? – perguntou Endon.

– Cerveja e mulheres.

Os três riram.

– Amigo – Endon apertou o ombro do guerreiro – Tu ia adorar meu irmão.

– Falar nisso – interrompeu Hikan – E Stillgar. Vocês sabem onde ele foi com tanta pressa?

– Não sei – respondeu Silvik – Mas eu não confio naquele mago.

– Pare – disse Endon – Ele tem se mostrado leal.

– Sim – disse Hikan – Não se preocupe. Ele está conosco.

Silvik bebeu a cerveja. E ficou olhando para as meninas dançando na taverna. Havia algo de errado com aquele lamormyano.

 

* * *

 

A cripta do Véu Negro era muito escura, mesmo para os olhos meio silvestres de Aldresh, mas não era indicado usar luz ali. Certamente atrairia a atenção de Ayllis. Isa Carolyn apontava a direção para ele, mesmo estando em Litarmina a milhares de quilômetros, o anel da hidra tinha este poder.

– Eu acho que isto é uma péssima ideia – disse Aldresh para ela.

– Precisamos disso – respondeu a guerreira maga – Aliás queria entender como você consegue estar imune aos efeitos de magias tão poderosas.

Aldresh colocou a mão na algibeira, apertou a pedra Shuoa e continuou.

– Tenho meus segredos – disse ele sorrindo – Me distraia um pouco – disse ele enquanto se abaixava para abrir as fechaduras da saleta que encontrara – o silêncio me distrai.

– Tem certeza? – disse ela – A maioria diria o contrário.

– Eu sou a menoria.

– Nem sei o que falar, estou com tanto medo quanto você.

Ele sorriu. Começou a soltar as fechaduras e aporta abriu. Era uma especie de laboratório. Ele puxou uma sacola e começou a vasculhar uma mesa cheia de papeis e poeira.

– Fale-me de onde está – insistiu ele – Litarmina né?

– Não tem o que falar – disse ela olhando para o próprio quarto – Estou caminhando de um lado para o outro imaginando o que pode acontecer com você aí.

– Está vestida? – disse ele sorrindo enquanto puxava alguns pergaminhos da gaveta.

– Al!?

– Que foi?

– Concentre-se no que está fazendo.

Ele riu.

– Sabe Isa, de todos os membros da nossa irmandade, você – ele parou imediatamente – Espere olhe isto.

Isa tomou o controle. Pegou os pergaminhos e analisou os nomes escritos.

– São as pessoas que receberam a magia – disse ela – Taberon, Irvik, Dalner, Silvik… São muitos Al!

Aldresh tomou o controle. Guardou os pergaminhos no porta mapas. Ele ouvira algo perto dali. Lentamente ele se espreitou para fora da sala e chegou numa câmara mal iluminada mas que lhe favorecia. Dois sujeitos chegavam. Quem seriam eles?

 

* * *

Daryan dyn Kayllis abriu a ultima porta que levava ao salão do Véu Negro de Ayllis. Stillgar olhava para todos os lados com curiosidade, era uma lugar sinistro, mas ele tinha objetivos.

– Pode ir – falou Daryan apontando para a direção onde estava Ayllis sentada em um trono.

– E você – perguntou Stilgar.

– Disse que te traria, não que iria ir contigo.

O mago caminhou vagarosamente até a feiticeira vampira. Ela o olhava com interesse, sem esboçar grande expressão.

– Sou…

– Poupe-me – interrompeu ela – Trouxe?

Ele assentiu com a cabeça. Pegou a varinha de tahohas e o pano branco com gotas de sangue. Ela flutuou até ele e pegou os dois objetos. Jogou a varinha em um dos cantos e olhou para o pano com o sangue de Hikan, e depois cheirou.

– Cumpri com a minha parte – disse Stillgar.

– Ha sim – disse ela – Qual o nome da menina.

– Beckia Fonthor Chamouth.

Ayllis fechou os olhos e se concentrou. Pronunciou algumas palavras e aos poucos o nome de Beckia começou a sumir da mente de todos: exceto dela, de Stillgar e daqueles que portassem a pedra Shuoa.

 

* * *

Akille Chamouth se ajoelhou com a filha para orar para a luz. Estavam a frente da tumba de Beckia. Ele já tinha os planos para caçar aqueles que tinham o anel da hidra. Estava pronto para viajar quando uma neblina repentina tomou o cemitério. Sua filha Carla de apenas cinco anos olhou assustas para todos os lados. Gritou: – Papai!

O rei de Draema olhou para todas as direções e viu que um de seus soldados se aproximava.

– Senhor o que fazes no cemitério? – perguntou ele.

Akille olhou para o tumulo sem nome, achou estranho, não sabia quem estava enterrado ali. Olhou para aquela criança estranha que estava ali.

– Quem é esta? – perguntou Akille para o soldado.

O soldado olhou para Carla, uma desconhecida para ele agora.

– Não sei senhor – ele estendeu a mão para a criança – Deixe que eu a levo para a cidade. Encontrarei os pais dela.

Akille assentiu. Passou a mão na cabeça de sua filha sem saber de quem se tratava e seguiu para o castelo. Estava ainda confuso.

O soldado levou a criança até perto da cidade. Olhou para todas as direções, estava atrasado para chegar na taverna e beber a noite toda. Então deixou a criança ali mesmo.

– A cidade é para lá criança – disse ele apontando – Boa sorte.

Carla viu o cavalo sumindo ao longe, e apertou as mãos perto do peito. Estava sozinha no mundo, não sabia onde estavam seus pais, não sabia como eles eram ou como eram seus nomes. Carla Ninguém estava sozinha como muitas crianças no mundo.

Ela vagou pela cidade escura. A noite era aterrorizante para os adultos e duas vezes pior para uma criança.

– Heim! Menina – disse um sujeito estranho de dentro de um celeiro – Venha aqui.

Carla caminhou lentamente na direção dele.

– Entre criança – disse ele com um sorriso medonho – Tenho uma coisa para te mostrar, entre!

Carla estava a uma passo de entrar no celeiro. Quando uma lamina fina foi colocada no pescoço do sujeito. Carla viu um mestiço de manto marrom apontando a adaga no pescoço daquele cara. Mas na verdade era Isa Carolyn no comando:

– eu tenho uma coisinha para te mostrar – ela baixou a lamina pelo peito dele e apontou para sua virilha – ou para te tirar.

O sujeito entrou para o celeiro e fechou a porta.

– O que tu está fazendo – reclamou Aldresh para Isa.

– Não podíamos deixar esta criança com aquele degenerado.

– Olha Isa, nos tivemos bons momentos, mas adotar é um passo muito grande para nós – Aldresh debochou dela.

– Pare – disse ela não segurando o riso.

Isa se abaixou diante de Carla, que enxergava apenas Aldresh.

– Qual seu nome?

– Carla.

Aldresh lembrou de Carla filha de Akille irmão de Traumat. Lembrou do feitiço de Ayllis.

– Vem comigo criança – disse Aldresh – tenho um lugar para te levar.

 

* * *

Endon e Hikan observavam Silvik martelando a cerca. O Andarilho contava as marteladas com os dedos da mão direita, quando deu a quinta, Silvik acertou a própria mão. Os dois começaram a rir. O guerreiro olhou sério para os dois.

– É a quinta vez Silvik dedos de Prego – gritou Endon.

Silvik chupou o dedo e se preparou para continuar as marteladas.

Hikan viu um cavaleiro chegando e avisou Endon: era Aldresh.

– Deixa comigo – disse o andarilho.

Endon foi ate o irmão que desceu do cavalo. Havia uma menininha com ele. Era rayvodia, tinha o olho esquerdo negro e o direito era meio verde e meio azul: isto é nobreza riorniana.

– Quem e esta menina?

– Longa história! – disse ele – Preciso que fique com ela em seu orfanato.

– Como sabe?

– Eu nunca te abandonei irmão – Aldresh sorriu – Só que eu tenho que ir, odeio quando este mundo me torna um heroi.

Endon sorriu olhou para o orfanato que se formava ao lado da torre de Hikan.

– É nem me fale – disse Endon – Acho que são as companhias.

Aldresh subiu no cavalo olhou para o irmão e sorriu.

– Papai ficaria orgulhoso de ti – disse ele para Endon.

Endon sorriu e olhou a criança que ele havia trazido.

– Acho que de nós – Endon respondeu, e Aldresh partiu.

 

Resumo Sessão V

O jovem cavaleiro Qestros Red’Ronth resmungava de dor deitado em sua cama. Estava com dois grandes hematomas, um no peito e outro na barriga.

– Elissaaaa… – gritava o garoto para a irmã.

– Já estou indo – respondeu ela trazendo as pressas uma bacia com água quente e compressas – Você é muito chorão! Foi só uma luta de justas.

– Mas doeu tá! – disse ele triste – Oberyan bateu com muita força!

– É um claymorniano querido, eles só sabem bater assim.

Ela colocou as compressas nos hematomas e ele gemeu de dor.

– Imagina se você fosse para guerra, teria ferimentos muito piores que estes.

– Duvido – disse Qestros – Eu acho que vou morrer.

Ela riu do irmão mimado.

– Me conte como foi o torneio – pediu o garoto.

– Bem deixe me ver: Ruffere venceu Uther, Daryus, Akille Luthenkall e Oberyan, aquele quem te derrubou – ela piscou para ele.

– Chata – resmungou ele arrancando gargalhadas dos dois.

– Do outro lado da chave Tallrem venceu Tallrom, que para mim foi a batalha da tarde. Depois ela venceu Darian e pegou na semifinal o estreante Hikan.

– Hikan passou por Cabriel? Ele ganhou de mim na semifinal do último torneio.

– Dessa vez ele não passou das oitavas – respondeu Elissa – Hikan venceu ele e depois Luh-Takaha dos Takarages.

– E como foi a luta dele com Tallrem Barezade?

– Ele venceu. Foi para final contra Ruffere Chamouth – disse relembrando – E contra todas a possibilidades ele conseguiu escapar de um dos ataques certeiros do velho riorniano. Há quem diga que foi sorte – ela pausou e sorriu – Mas eu vi que não foi.

– Como assim? – perguntou ele curioso.

– Eu vi um dos aliados de Hikan atiçando o cavalo para esquivar no ultimo instante. Acho que ninguém percebeu, mas eu vi algo inspirador ali.

– Qual dos aliados?

– O andarilho.

– Não foi aquele que quase venceu a gincana da taverna do Gato Aranha?

– Como? – indagou ela curiosa.

– Não ficou sabendo? – Qestros se sentou na cama com dificuldades – Ontem houve muitas apostas na gincana da taverna. Estava cheio de pessoas com dinheiro na taverna, eu mesmo ganhei alguns coroas. Teve um lamormyano que chorou e pediu para sair.

– Sério? – ela riu – Estes lamormyanos.

– Sim! Mas depois venho um forasteiro – contou Qestros – Ouvi dizer que era filho de Endon, irmão de Aldresh.

– Eu estava lá com papai quando Aldresh cruzou o final da gincana – ela lembrou contando para o irmão – Eu era muito pequena, papai me colocou nos ombros. Ele parecia um bailarino passando pelas armadilhas.

– Bem – continuou Qestros – Este andarilho tinha uma técnica mais bruta. Escapava nos detalhes, e usava mais força que agilidade. Mas acabou caindo no último corredor. Mesmo assim foi bem.

Elissa ficou pensando no andarilho que cruzou a gincana da taverna e ajudou o cavaleiro Hikan na final das justas.

– Afinal Hikan ganhou de Ruffere? – perguntou Qestros, tirando a irmã dos devaneios.

– Não é mais Hikan meu irmão – respondeu ela – É sir Hikan Nahi.

Prólogo II da Sessão V

A guarda de Beckia a levou até os limites do vilarejo arruinado de Clarany. Haviam se passado séculos de sua destruição para os calibans. Um dos soldados questionou:

– Majestade, tens certeza que ficará bem sozinha?

Beckia olhou para os lados, Stillgar, que apenas ela podia enxergar devido ao anel da hidra, fez que sim com a cabeça. A rainha de Draema seguiu sozinha, atravessando a cidade em ruínas que cheirava a morte.

Ela entrou em um estabelecimento, apontado por Nevolas, parecia uma antiga estalagem. Estava frio lá. Ela usou a capa para se proteger. Dremetron reclamou – Não gosto desse lugar. Nevolas e Stillgar se olharam. Dirgalla falou para o minotauro: – Precisamos que você desligue-se do grupo por um instante. Raarossú também.

– Como assim!? – indagou a druída chamua – E se ela precisar de nós?

– Fique tranquila – respondeu Stillgar – Está tudo sobre controle.

Raarossú desconfiada olhou para Dremetron e ambos tiraram os aneis. Nevolas e Périckles sorriram. Beckia ouviu passos no andar de cima.

– Tem alguém aqui – disse ela com temor.

– São assassinos – disse Stillgar.

– O que? – Beckia correu até a janela e viu que haviam dois sujeitos com capuz negros do lado de fora.

– Não leve para o lado pessoal majestade – disse Stillgar – Mas precisamos de um grupo forte para a hidra. E você está ocupando o lugar de alguém mais poderoso. Temos um assassino das nevoas, uma druída, uma bruxa das trevas, um arqueiro…

– Inigualável – completou Périckles.

– Vocês me traíram! – gritou Beckia.

– Não se preocupe – respondeu Stillgar – São assassinos profissionais, contratados por Nevolas, você não sentirá nada.

– Stillgar eu sou mãe, tenho uma filha pequena! – apelou Beckia.

– Este não é problema meu – respondeu o mago.

A porta se rompeu e os assassinos entraram.

* * *

Draema estava em luto com morte de sua rainha. Uma comitiva de cavaleiros realizou o ritual das espadas para baixo. E pela primeira vez na história de Digared, uma pessoa foi enterrada com a bandeira de Claymor em terras rayvodias.

– Ela amava aquele reino – disse Akille Chamouth quando solicitou a bandeira para um de seus soldados.

Adina segurava a sobrinha Carla de três anos no colo.

– Tia Dina, pede para a mamãe levantar – pediu a criança – Estou com saudades do calor dela.

Adina não conteve as lágrimas e abraçou a criança com força.

Advenne segurava a carta de pesar enviada por Enzigh, enviando suas condolências aos Chamouths e lamentando não poder vir. Traumat coordenava o enterro e apoiava o irmão de perto. Era um dia triste para a casa dos Chamouths.

E no final do enterro, dois batedores de Akille retornaram apreensivos se dirigindo ao rei.

– Meu rei – disse um deles – Eles insistiram que vieram e paz.

Todos se voltaram para a entrada do cemitério. Uma comitiva com um soldado claymorniano com a bandeira branca da paz, tomava a dianteira seguido por outros cavaleiros. Mas não eram simples cavaleiros: Wesnayke Fonthor e sua irmã Tricinia, seguidos pela mãe de Beckia, Virtini, que não escondia as lágrimas de dor. Itilia passou a frente de todos junto com Oberyn, enquanto Gorbach decidiu ficar na entrada do cemitério.

Itilia e Oberyn mostraram para Traumat e Akille que estavam desarmados. O rei de Draema segurou o braço do irmão que já buscava o cabo da espada.

– A dor é compartilhada por nossos inimigos – falou Akille – Hoje não.

Itilia reverenciou Akille, e foi até o caixão se despedir da irmã. Tricinia guiou a tia Virtini até o túmulo.

Advenne olhava seus antigos e maiores inimigos com raiva. Mas sentia mais ódio de seu filho por ter criado aquela situação. Sua filha trouxe sua neta até ele. A garotinha ingenua tinha o olho esquerdo verde igual ao seu, mas o direito era negro como os claymornianos.

Wesnayke foi até Akille, e o chamou para um canto. O rei foi. O claymorniano colocou uma pulseira de conchas na mão do riorniano.

– Ela me deu quando eramos crianças e fomos visitar a praia de Ergedon – disse Wesnayke deixando uma lágrima escapar – Ela amava aquele lugar.

Akille sorriu pegando o presente e mostrando outra pulseira, feita mais recentemente.

– Sim ela amava mesmo – respondeu o viúvo.

– Beckia era o sol cheio de vida de nossa família – falou Wesnayke – Era o equilíbrio o que nos mantinha unido. Digared é pior sem ela.

Akille apenas concordou.

– Já sabe quem fez isto?

Akille apenas sacudiu a cabeça negativamente. Wesnayke esticou a mão para o antigo inimigo. Ele olhou e apertou o braço dele.

– Ela era uma Fonthor e uma Chamouth – disse Wesnayke.

– Sim! Quem mexeu com nossas famílias deve pagar!

Os Fonthors e os Chamouths se reuniram em volta dos dois novos aliados. Traumat olhou para Oberyn que concordou. Tricinia e Adina concordaram em silêncio. Virtini recebeu um abraço de Advenne Chamouth. Itilia e Cegalia se cumprimentaram. Enquanto Gorbach observava de longe.

– Por uma aliança de nossas famílias, por vingança e poder – disse Akille para todos – Nosso inimigo nos tirou algo puro e bondoso. Mas vamos responder com sangue e terror. Mesmo que eu precise lavar este continente com o vísceras, eu terei minha vingança.

– Nós – disse Wesnayke – Nós teremos.

– Por Beckia – disseram os dois.

De longe Gorbach suspirou. E saiu dali caminhando. Ele olhou para o anel da Hidra e falou para Stillgar e Nevolas: – Temos um problema.

* * *

Raarossú havia tirado o anel, mas o colocou logo em seguida e ficou calada. Viu a traição. Viu o que as pessoas podiam se tornar. Ela tirou o anel do dedo e jogou longe dentro de sua tenda. Pegou os pergaminhos que usava para desenhar com carvão. Haviam ilustrações de ótima qualidade de grandes feras, de dragões que ela sonhava, de lugares que ela visitara, e pelo menos duas duzias de imagens de Stillgar. A jovem druida começou a rasgar uma a uma as imagens do mago. Ela se atirou ao chão e chorou, chorou por Beckia e por sua ingenuidade. Chorou por não ter feito nada, chorou por ser tão fraca.

Ela votou a rasgar as imagens. E parou.

Correu até o saco de carvão e pegou um bom pedaço. Começou a rabiscar uma imagem de Nevolas e Stillgar. Rabiscou Dirtalla. Depois escreveu algumas palavras. Fechou os olhos e começou a recordar algumas imagens que tinha de quando conversava com Beckia em Draema. Lembrou-se de sua filha, e lamentou que agora ela cresceria, como ela mesma, sem uma mãe.

Raarossú correu até a tenda de Paratin, o Passo Largo, e lhe entregou o pergaminho:

– Paratin – disse ela para o jovem chamua vestido com pele de jaguar – Sabe chegar em Draema? Preciso que entregue nas mãos de Akille Chamouth.

Prólogo I da Sessão V

O rei Dorgarthos olhava sério para o trono aveludado e vermelho de Claymor. Havia um grande escudo de ouro colocado acima. Um escudo grande de mais para ser usado em uma batalha, mas servia muito bem para o seu proposito: Intimidar. Nele haviam cetros encaixados: Ergedon, Napoesh, Estengard, Takash, Wardon, Usgar, Melgorona, Trindade, Lyn e Alísios. O decado. Dez reinos que juraram obediência a Claymor. Cada um daqueles cetros foi conquistado em guerras sangrentas, e a metade deles pelos Fonthor.

Dorgathos dos Turdens era o último do seu clã. O velho rei não quisera ter filhos com medo de perder o trono. Havia orquestrado a morte dos irmãos e primos. Havia orquestrado a morte de diversas famílias de Claymor, temendo que pudesse perder o controle do reino, mas os Fonthor não morriam. Eram como uma praga. E agora Enzigh de Alísios estava dominando suas fronteiras, pois ele havia colocado Wesnayke no oeste para vencer a guerra com os Riornianos e não imaginava uma investida de Alísios.

Os claymornianos eram orgulhosos demais para aceitar a derrota. O velho Turdens estava ouvindo os homens de Alísios entrando em seu castelo. Era a primeira derrota de Claymor em mil anos! Ele não podia ver isto.

* * *

Enzigh e Dalmer rendiam os soldados do rei, não havia necessidade de mais mortes, havia conquistado vinte vitórias em duas semanas. E agora era preciso apenas assinar um acordo.

Uma mulher gritou no meio da multidão.

Um corpo caiu da torre do castelo. Era o velho rei Turdens. A guerra estava acabada. Claymor havia caído perante Enzigh. E o velho rei de Alísios sorriu.

– Meu filho Dalmer – disse Enzigh sorrindo – Entre na sala do rei e me traga o Escudo do Decado. Pois a partir de hoje! Os Landrehas se levantam do trono de Alísios para sentar no trono do Decado.

* * *

Wesnayke estava avaliando a campanha quando seu filho Billie e capitão entrou na tenda.

– General – disse Billie respeitando as patentes do exercito – Noticias de Claymor.

– Podem esperar – disse Wesnayke – Hoje Azuleno cai.

– Perdoe-me senhor – insistiu o capitão – Hoje nos caímos.

Tricinia e Gorbach se levantaram da mesa. Estavam avaliando o mapa ainda. Itilia e Oberyn entraram na tenda logo em seguida. Oberyn o Leão Negro olhou sério para o primo:

– Noticias de Melgorona – disse o ex gladiador – Eles se renderam para Enzigh Landreha.

– Usgar e Guelrom também – comentou Itilia.

– Nós também – falou Billie mostrando o pergaminho oficial para todos – O rei está morto.

Wesnayke bateu na mesa com força, partindo a pedra de granito. Todas as centúrias de sua família estavam espalhadas, levaria meses para reunir todas. E sem o controle do Decado isto poderia se estender por anos.

– O que faremos agora? – perguntou Tricinia para o irmão.

Wesnayke olhou para a muralha de Azuleno, de dentro de sua tenda. Queria muito entrar com seu corcel, atravessar a cidade com a cabeça de Vhalshirom. Mas sonhos haviam de esperar.

– Os Fonthos sempre são um jeito – comentou ele – Vamos retornar para Claymor, vamos reconhecer o triunfo de Alísios e vamos repousar. Esperar a poeira baixar.

Wesnayke sorriu. Sua irmã e primos sorriram também. Todos entenderam o plano.

– Precisamos repousar para estarmos descansados para o futuro – disse Wesnayke – O que temos aqui senhores, é uma oportunidade. Não temos mais rei, e nenhum clã de Claymor nos supera hoje em poder. Vamos colocar nosso pai no trono de Claymor e aceitar a derrota.

Tricinia pegou o vinho abriu e serviu taças para todos.

– Bebamos e brindamos – disse ela – Somos Fonthor’s e nosso Repouso…

– …É a batalha! – gritaram todos.

* * *

Traumat Chamouth olhava o pai assinando os contratos. Advenne sorriu para Dalmer que saiu com os contratos. Fechando a porta e deixando os dois Chamouths juntos.

– Não entendo pai! – disse Traumat – Por que entregar nosso reino para Enzigh.

– Não estamos entregando filho – disse Advenne – Estou colocando você no trono de Riornia e agregando nossas forças ao Decado. Não tem mais um Claymorniano no poder, isto pode melhorar o comercio e garantir a paz de Digared.

Traumat sacudia a cabeça.

– Estamos trocando um ditador por outro.

– Enzigh não é como os Claymornianos.

– O cachorro que morde mais forte é o que criamos em casa – disse Traumat – Pois a mordida vem no afago!

Advenne sorriu, mas não acreditava no filho. Ele era idealista, acreditava no velho amigo. A assinatura dele colocava não apenas Riornia, mas os aliados Azuleno, Vhalteha, Draema, Iliguerd, Largan e Uthera no Decado. Ometardeck, Litarmina e Roggen também haviam assinado e o Decado deveria mudar de nome. Agora Alísios governava Vinte reinos. Haviam 40 reinos independentes em Digared.

* * *

A festa estava muito bem organizada, não havia economia, e a decoração era impecável. O casal Cahethel e Laura Dimitriel cumprimentavam os últimos convidados que chegavam: o casal Dalmer Landreha e Garlini Barezade Landreha. Garlini e Laura se cumprimentaram e a anfitriã mostrou alguns aspectos da decoração. Já Dalmer abraçou o velho amigo e comentou:

– A festa está muito bonita – disse o Landreha – Mas este casamento…

Cahethel sorriu para Dalmer.

– Azhaela está feliz, é o que importa para nós.

– Wesnayke não está casando com sua prima – alertou Dalmer – Está casando com suas centúrias. Os Fonthor’s não desgrudam do poder com facilidade.

– A casa Dimitriel está atenta.

Dalmer e Garlini saíram com Laura para serem apresentados a outras pessoas. Enquanto Cahethel foi conversar com sua prima Alejandra, a linda rainha de 2,2 m de altura.

– Alísios venho com Dalmer e Garlini – comentou Alejandra.

– Sim – respondeu Cahethel se servindo de vinho – Mais para manipular do que para festejar.

Os dois primos observavam Azhaela em seu belíssimo e caro vestido rosa, dançando com seu pai, Geromel Dimitriel. Os bardos tocavam uma valsa muito bonita, e Geromel entregou a filha para dançar com seu marido Wesnayke Fonthor.

– A única pessoa neste salão que está festejando é Azhaela – disse ela.

– Eu sei – respondeu Cahethel – Estou ciente. Quero a felicidade de Azha, mas não sou ingênuo Ale.

– Não vejo diferença em servir a Landrehas, Fonthors ou Chamouths – disse Alejandra com muita seriedade – Acho que está na hora de agirmos.

– Ainda não – respondeu Cahethel – Enzigh reuniu os reinos. Ele quer trazer Lamormy e Laphomy. Semlya e Tapsa vão assinar. Ele está trazendo Ordem para Digared. E isto é bom.

– Ele age pela manipulação e pelo medo e isto não é justo! – repreendeu ela – Lembre-se de nosso lema: Não há ordem sem justiça!

Dimitriel sorriu para Alejandra.

– Os Landrehas estão ordenando o continente. Mas cabe a nossa casa trazer a justiça. Esperemos o nosso tempo.

Ela sorriu para ele.

* * *

Vhalshirom Luthenkall jantava com sua família, era uma comemoração pelo aniversário de sua sobrinha Cegalia. Como de costume, não havia falatório durantes as “festas” dos Luthentallis.

Um mensageiro entrou e trouxe uma bilhete para Vhalshirom. Ele leu atento, e recebendo os olhares dos filhos Akille, Perickles e Aradiana, além da sobrinha.

– Está certo – comentou o rei de Azuleno para o mensageiro que saiu – Azhaela é Fonthor agora.

Ouviu-se um silêncio naquele momento.

– Deveria ter matado ela quando tive a chance – disse Aradiana irritada e bebendo um gole de água.

– O passado é imutável querida – comentou o rei.

– Vamos ficar parados enquanto Wesnayke dobra sua força? – questionou Akille Luthenkall.

– Vamos agir no momento certo – respondeu Vhalshirom – Temos nossa muralha, temos nosso exercito. Não é problema nosso. Não ainda. Os Landrehas estão no poder, eles são os alvos no momento. Vamos espera o nosso momento e a hora de agir e soltar a palavra certa.

– Mais diplomacia meu pai – reclamou Perickles – Posso acertar uma flecha no olho de Wesnayke amanhã, só preciso…

– Você precisa ser homem! – gritou o rei – Acertar uma flecha no nosso inimigo nos tira toda a glória! Os bardos espalham a vitória de sua irmã frente a Azhaela, frente a Dalmer. Aradiana derrubou todos os herois as 11 famílias.

Aradiana ficou quieta de cabeça baixa, não gostava de ficar em evidência.

– Parece que ela é a única que possui culhões entre vocês três!

Akille e Perickles ficaram vermelhos de fúria, mas não ousaram reclamar do pai.

– Agiremos com as palavras sim! – disse ele – E quando chegar a hora, os Luthenkallis chegaram ao poder. Não para esquentar para os Chamouths ou Dimitriellis. Mas para sempre.