Prelúdio II – Aventura Sombras de uma Palavra não Dita

Os sons de espadas batendo em escudos, cavalos relinchando e gritos de dor e agonia, tomavam conta da praia. Cercado por vinte inimigos Stillgar disparou um raio da ponta dos dedos atingindo com força metade dos soldados trajados de armadura negra. Ele recuou procurando abrigo nas rochas enquanto os demais homens marchavam vagarosamente em sua direção com escudos empunhados. Eles já haviam dado cabo de seus guerreiros – quinze – foram massacrados, não tiveram chances. E agora parecia que as magias que ele aprendera a tanto custo não faziam efeito nestes homens: – Seriam os homens do Impronunciável, invencíveis?

Um riso infantil lhe chamou a atenção, ele olhou imediatamente para uma fenda entre as rochas, e enfiada em panos estava uma criança de três anos. Ela sorriu com os olhos azuis vidrados nele e ele sorriu de volta. Voltou-se para os homens e pensou – Invencíveis ou não haverão de morrer nesta praia.

Stillgar puxou o cajado de vitro e se preparou para mais um combate.

– Venham malditos – gritou o mago enfurecido.

Os dois mais adiantados se arriscaram em sua direção, mas antes que eles se aproximassem, Stillgar disparou um leque de fogo que os incendiou, mas antes mesmo que pudessem se defender uma magia adicional foi lançada pelo mago e as pernas dos homens se tornaram pedras. Sem chance de esquivar ou se jogarem ao chão para apagar as chamas os homens viraram churrasco a frente de seus companheiros.

Um dos soldados restantes gritou para os demais homens atacarem: Cinco partiram para cima do mago, ele mirou o cajado neles e lançou uma teia negra que prendeu os cinco de uma só vez, mas antes uma magia surgiu e aqueceu os metais de suas armaduras e espadas. Atados e com as peles queimando pelo próprio aço que deveria lhes proteger, restava apenas gritar.

Gritos de homens incendiando, gritos de homens presos em aço derretido. Os três soldados que restavam encaravam o mago com relutância. Ele sorriu para eles.

– Venham malditos – gritou novamente, estava feliz, pois suas magias pareciam que finalmente estavam fazendo efeito.

Só que eles não vieram. Apenas observaram seus amigos morrerem sem nenhuma reação. Até que um grupo de cavaleiros chegou à praia. Liderados por uma mulher loira com metade do cabelo raspado e a outra comprida: – Valinoria! – falou Stillgar baixinho.

[- Sim! – a voz feminina ecoava em sua mente – Renda-se meu antigo amigo. Entregue a miúda e vamos fazer as pazes.]

[- Não tenho esta intenção Valinoria. Enterrarei você e todos seus lacaios nas areias desta praia ou morrerei tentanto.]

[- Um desperdício de talento em minha opinião, mas quem sou eu para negar isto á um moribundo?]

Ela parou o cavalo á alguns metros do mago e os seus lacaios a seguiram. Todos usavam armaduras completas com elmos fechados; Não era possível identifica-los e Stillgar ficou pensando se um deles não poderia ser o tal Impronunciável. Na verdade, mesmo que eles estivessem sem elmos, assim mesmo, ele não o reconheceria: ele nunca o havia visto. E nunca conhecera ninguém que o tenha visto: – Estranho… – pensou ele.

[- Última chance – falou ela novamente em sua mente – Jogue o cajado e entregue a criança e lhe darei a chance de morrer rapidamente.]

[- Tenho outra proposta – outra voz, também feminina ecoou na mente deles, todos eles – Você e todos os seus lacaios se rendem, dão meia volta e vão até o líder de vocês e o assassinam. E talvez assim os deixe viver.]

Ouve uma agitação entre os soldados.

– A bruxa ruiva – gritou um dos cavaleiros – eu conheço esta voz…

Miner! – falou Stillgar para si mesmo, ele sorriu com a virada.

Valinoria por sua vez ficou observando o ambiente.

[- Você nãos estás aqui rapariga! – a voz da maga loira e corte exótico ecoou na mente de Stillgar também – Sei que não estás!]

[- Sim! – falou a voz, agora ouvida por todos – Estou há dez mil quilômetros, mas posso manter minha palavra…].

[- Zork – a voz de Miner ecoou na mente de um dos soldados, Zork – Tu temes a morte?]

            – Não, por favor! – clamou Zork gritando para os céus, todos olharam para ele, havia lágrimas em seus olhos – Isto é injusto…

            – Sai da mente dele bruxa – gritou outro guarda para os céus.

            – Parem! – Gritou Valinoria para os lacaios – Ela não é uma deusa. Está só a voz manipular!

            [- Manipular? – Miner gargalhou na mente de todos – Então vou matar Zork e provar meu poder].

            – Não, por favor! – gritou Zork – Eu imploro…

            [- Mate-a! – gritou Miner para Zork – Ou morras com minha palavra!]

            Zork parou, olhou para Valinoria. Imediatamente dois homens se colocaram a frente da maga. Logo mais cinco soldados colocaram as mãos nas cabeças. Eles suplicaram baixinho e logo voltaram sua atenção para ela também.

            – Protejam Valinoria – gritou o cavaleiro no comando.

            Uma rebelião se iniciou e os cavaleiros – antes unidos ao comando de Valinoria – começaram a lutar contra seus superiores pelo direito de viver.

            [- Pegue-a Stillgar – falou Miner para o mago – Para o oeste!]

            Stillgar correu até a criança e a pegou com cuidado. Um dos cavaleiros que retirava a espada de dentro das entranhas de um dos rebeldes gritou: – O mago está fugindo – Ele não deu importância e correu em direção ao oeste. Pronunciou algumas palavras e a areia subiu por baixo de suas pernas e um cavalo de areia se formou, levando-o para longe.

            – Peguem-no! – Gritou Valinoria, olhando para o ultimo rebelde sendo morto.

            O mago cavalgou com velocidade, os cavaleiros estavam muito atrás. Porém logo avistou um novo reforço vindo: Mais duas dúzias de cavaleiros.

            – Onde será que eles acham tanta gente para contratar? – Resmungou o mago que cavalgava em direção ao oeste até ver que havia um cavaleiro vindo de encontro a ele nesta mesma direção – Maldição! – gritou ele esticando o cajado para este.

            – Não! – falou a pequena criança em seu colo fazendo um afago em seu queixo – Ela é boa!

            O mago parou e o cavaleiro, que era na verdade uma mulher parou a sua frente. Soltou o capuz negro para traz e mostrou o rosto de Ilita a ladra.

            – Stillgar! – falou ela sorrindo e olhando rapidamente para a direção que ele vinha – parece que tens companhia.

            – Sabe como é né – falou ele sorrindo – ‘Ex’ é sempre um problema.

            – Eu que o diga! – falou ela rindo.

            – Não temos tempo a perder – O mago lhe entregou a criança – Siga para o oeste.

            – Sim ela falou comigo já. E tu mago?

            – Eu? – ele sorriu e virou o cavalo de areia para a direção do exercito que o seguia – Eu vou assinar os papeis do divorcio.

            O mago partiu para cima do exercito. E Ilita para o oeste.

 

* * *

 

            Já havia anoitecido e Cahethel deu uma ultima ordem ao capitão do turno da noite. Ele bateu continência ao herói e partiu para seu turno.

Exausto por mais um dia que chegava ao seu fim, Cahethel recolheu-se até o escritório ao lado do alojamento. Tirou a capa, dobrou e desfivelou as amarras de sua armadura. Finalmente sentou-se em uma poltrona em frente á uma mesinha de centro. Puxou uma caixa de madeira e retirou uma cigarrilha e acendeu.

            Deu duas tragadas, soltou a fumaça e ouviu uma batida na porta.

            – Entre – respondeu para a batida.

            Entrou um homem com heterocromia (um olho azul e outro verde), cabelos negros e barba rala. Tinha a atitude nobre e o porte de um guerreiro: era Akille Chamouth; Ele deu um meio sorriso para Cahethel que retribuiu e apontou para outra poltrona; este aceitou e sentou-se.

            – Vinho?

            – Não obrigado! – respondeu sério. Ofereceu as cigarrilhas, mas ele fez um gesto negativo com a cabeça – Estou um pouco enjoado – explicou.

            – Entendo – Cahethel deu mais uma tragada. Suspirou, era uma ótima erva esta – Recebemos um grupo hoje.

            – Ouvi falar – respondeu – Os soldados só falam em uma fada. Tive até dificuldades de descobrir que havia outros com ela.

            – Sim! Eles ficam sempre eufóricos com mulheres, principalmente fadas. Mas ela é bonita mesmo.

            – Se ela fosse feia eu me interessaria em conhecer – respondeu Akille – Uma fada bonita é só mais uma fada. Estou mais interessado no que dizem que eles trouxeram.

            – A Criança?

            – Sim – respondeu ríspido – Sabe quem ela é?

            – Queres saber se eu recebi a mensagem? – perguntou Cahethel sem delongas. Akille fez um sinal de positivo com a cabeça – Sim. Ela falou comigo também. Acho que falou com todos nós.

            – Eles mataram Stillgar?

            – Temo que sim.

            – Mas não tens certeza?

            – Não! – ele apagou o toco da cigarrilha num cinzeiro em forma de cavalo sob a mesa – Irás atrás dele, não?

            – Sim – ele fez uma pausa – Mas antes me fale do grupo. Eles são de confiança?

            – Acho que sim. É cedo.

            – Fiquei sabendo que eles salvaram tua irmã em Trindade. Apesar de jovens parecem ser determinados.

            – Ouvi falar disto – Cahethel sorriu e completou – Ouvi falar da historia de Aldresh também.

            Os dois riram como se achassem graça de uma piada.

            – Ele está conosco? – Akille perguntou como se recordasse do assunto.

            – Quem sabe? – evasivo, ele prosseguiu falando – Mas voltando aos garotos. Além da fada tem um ladrão de Trindade mesmo.

            – Andrius não é? Levantei a ficha dele, era de uma guilda né? Está envolvido com suborno, espionagem e assassinatos.

            – Quem não está em Trindade? – desafiou Cahethel.

            – Verdade. É bom ficar de olho.

            – Coloquei Wesnayke nesta função.

            – E o Clédio? O Grandão?

            – Sim! Acho que pode ser uma boa aquisição. É ligado a Brigith, tem virtude e parece que tem uma facilidade para encontrar bons amigos – ele fez uma pausa e puxou um garrafão de vinho sob a mesa e serviu, ofereceu a Akille; que agora aceitou – Sirvik parece que é um mercenário, mas tem ótimos reflexos. Conversei com dois homens que servirão com ele em guerra. Já participou de algumas missões, mas parece que sempre coloca seus valores morais frente ao dinheiro que recebe.

            – Isto é bom! – Akille bebeu um gole – e o cavaleiro?

            – Segundo o clédio, este morreu ontem à tarde.

            – Lamentável – falou com pesar – Será o mesmo Vrendon de Guelrom?

            – Acredito que sim – Cahethel bebeu mais um gole de vinho – Tem uma maga litarminiana. Jirga. Não consegui nada dela.

            – Vou ver com a Isa. Aquela ilha é dela, ela deve saber algo dela ainda mais sendo maga.

            – Sim – ele sorriu agradecido – O lagarto parece que é da tribo do Givertrix.

            – Givertrix? Deuses ele ainda vive?

            – Não! Parece que morreu.

            – Humm – suspirou Akille – Muitas pessoas estão morrendo. E como eles chegaram aqui.

            – Parece que ao resgatar Carmen eles descobriram um covil de um Troll. Este servia ao Impronunciável, o algoz de Ixchel. O tal Hikan está atrás dele agora para destruí-lo. E parece que os outros o seguem.

            – Parece que nenhum deles conhece a historia do Impronunciável?

            – Verdade – Cahethel sorriu – Mas eles não são do tipo que tem medo. Eles enfrentaram Sirëthar na floresta, e foi assim que Vrendon morreu. E o tal Sirvik ficou cego.

            – Sirëthar – Akille ficou pensando.

            – Sim – respondeu observando o riorniano – Antes parece que eles viram uma mulher em fuga e ela estava com a criança. Fugia dos asseclas sombrios.

            – Ilita.

            – Exato – respondeu – Mandou a mensagem para Endon?

            – Sim. Ele está a caminho. Estávamos juntos quando recebemos a mensagem de Miner. E o que mais precisamos saber sobre eles?

            – Acho que mais nada. Nossos informantes já levantaram tudo.

            – São confiáveis para ficarem com a criança?

            – Terão de ser. Não temos tempo para isto – respondeu Cahethel sério.

            – Sim. Deixe-os treinando. Eu cuido do tal Sirvik. Encaminhe Azhaela pra o clédio. E mande Wesnayke ficar de olho no tal Andrius.

            – Quando retornarás para Riornia?

            – Em um ano. Estamos preparando um plano – Akille levantou-se e olhou para Cahethel – E tu? Vais atrás dela?

            – Creio que sim!

            – Precisarás de ajuda.

            – Precisarei de ajuda com tua irmã – respondeu Cahethel sério – Miner disse que ela não me deixará chegar á serra.

            – Eu também acredito que não – ele suspirou novamente – mas é o teu destino e o dela.

            – Vocês riornianos creem muito em destino.

            – Não – falou sério – Nós cremos apenas nisto.

            Akille deu as costas. E antes de sair falou:

            – Sinceramente meu amigo – os olhos de duas cores brilhavam na escuridão – Eu espero que ela te mate. Para que eu não precise fazê-lo no futuro. Estamos ligados pelo ódio e pela amizade. Quando tudo acabar, terei que vingar a morte do meu irmão – Akille deu uma engasgada, Cahethel apenas o encarava com seriedade – Gostaria de poder vingar a morde de Traumat. Mas Digared precisa de ti. E eu preciso de ti – ele parou, Cahethel fez menção a falar alguma coisa – Não quero ter que vingar a morte de Adina – as palavras de Akille pareciam possuir um grande pesar e medo.

            – Eu entendo – havia lágrimas nos olhos azuis de Cahethel. Ele sentia a falta de Traumat. Seu irmão de batalha, seu amigo. Amigo que fora obrigado a matar durante a guerra de Claymor contra Riornia. O mesmo amigo que havia matado sua irmã Carenth. Havia dor nas historias de Dimitriel e Chamouth. Duas famílias nascidas para dar fim a seus filhos. Mas havia a amizade e ela estava sendo vivida pelos dois heróis. Eles podiam desfrutar dela durante este período onde ambos possuíam inimigos maiores em comum.

            – Como está Laura e as crianças – perguntou Akille engasgando.

            – Estão bem – Cahethel sorriu – E Lizark e Jammielle?

            – Tão enormes. Jammielle já consegue empunhar uma espada. Acho que vai ser uma amazona no futuro.

            – Ótimo! – sorriu Cahethel – Talvez…

            Ele não continuou: – “Talvez um dia possamos reunir todos” – Não. Este não era o destino deles. Havia sangue em seus caminhos. E se não fosse Adina a matar Cahethel, seria Akille ou quem sabe Jammielle.

            Eles não se despediram.

 

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Prelúdio I – Aventura Sombras de uma Palavra não Dita

            A taverna do canto da sereia estava lotada. Era motivo de comemoração para todos trindadianos – Carmen Dimitriel estava de volta.

– Conte-nos Carmen – falou um dos fregueses que comemoravam o retorno da barda – como sir Aldresh a resgatou?

– ‘Sir’? – interrompeu Aldresh – não, sir eu deixo para os heróis de verdade como Akille, meu irmão Endon e o grande irmão de Carmen, Cahethel – ele bebeu mais um gole de água ardente – Sou apenas um homem apaixonado – ele sorriu para a barda que fez um sorriso tímido – Agi por impulso. Não por heroísmo. Não podia ficar sentado bebendo enquanto minha querida Carmen estava desaparecida.

A multidão delirou com a modéstia do mestiço.

– Não seja humilde sir Aldresh – falou outro homem erguendo os canecos – Fazemos um brinde ao grande herói sir Aldresh.

A multidão brindou e próprio também.

– Conte-nos Carmen – insistiu o homem – Queremos saber a história.

Carmen olhou para o mestiço e suspirou.

– Acho melhor o nosso herói contar – ela sorriu afagando seu rosto com doçura – por que não os entretém meu amor.

– Pois bem – ele sorriu e subiu no balcão – Quando fiquei sabendo do sequestro não me contive. Sai deste mesmo lugar onde estamos agora e busquei pistas sobre o desaparecimento da belíssima Carmen…

Ele prosseguia enquanto Carmen saia de fininho e retirava-se até seus aposentos.

 * * *

Carmen tocava seu violão sentado na cama, enrolada em uma toalha branca. Estava quente e por isto deixava a janela aberta e observava os sons do Raqaleu tomando a cidade. Era uma barda alegre e festeira, mas não estava a fim de comemorar hoje.

Uma batida na porta, seca.

– Entre querido! – falou ela um pouco rude. Aldresh entrou sorrindo, trazia consigo vinho e duas taças – Não achas que já bebeu o suficiente?

– Nunca é suficiente enquanto há bebida disponível – ele serviu uma das taças e entregou a ela que não recusou – Está chateada com algo? – Ela olhou séria para ele – Esta chateada por causa dos garotos?

– Chateada? Garotos! Pessoas morreram Al!

– Pessoas sempre morrem – ele suspirou e bebeu seu vinho e já serviu mais.

– Eu não te entendo, por que não fostes atrás de mim? Por que se arriscou colocando aqueles garotos no pântano.

– Faria alguma diferença para ti se eu tivesse estado lá?

– Faria – falou ela séria – mostraria que se importa que… – ela parou, pois ele levantou-se ríspido e balançando a cabeça – é a ruiva não é?

– Miner é passado – ele parou em frente à janela e ficou observando alguns jovens dançando em meio á um grupo de bardos.

Carmen arrumou a toalha no corpo e bebeu seu vinho.

– Não quero brigar – falou arrependida – Acho que…

– Como eles foram?

– Quem?

– Os garotos.

– Foram ótimos. Perfeitos – falou olhando para ele que mantinha-se debruçado á janela – O troll estava invisível e eles o atacaram unidos. Eram muitos é verdade, mas a maioria não tinha experiência – Ela parou um pouco – Alias. Acho que um deles encontrou algo lá.

– O que? – falou ele surpreso ainda olhando para fora.

– Uma espada – ela ficou olhando para o teto como se buscasse recordar algo – Lembra da espada do Krugër?

– A Serpente de Fogo? – Aldresh parecia agora um pouco inquieto.

– Sim. Soube uma vez que existem doze delas. Eu acho que eles encontraram uma.

– Sim, mas qual deles? – o mestiço parecia mais interessado agora.

– O clédio gigante – falou ela pensativa – sim ele mesmo. Deuses como aquele clédio é alto.

– Alto? – Aldresh sorriu – Ele é um paladino não é?

– Não falei muito com eles. Mas acho que é sim.

– Ele tem a espada?

– Sim acho que sim – ela parecia indecisa.

– E o ladrão?

– O que tem?

– Ele é bom?

– Sim – ela sorriu – Acho que será melhor do que você – ela começou a rir e ele a olhou sorrindo.

– É mesmo? – ele foi até ela e a abraçou e beijo seu pescoço – Aposto que ele não faz isto…

– Olha que acho que ele faz…

– Sua… – ele fez cocegas nela e a toalha caiu no chão.

Caiu no chão sobre uma espada. Uma espada rara, com uma luz fosca que parecia dispertada por algo. Algo que estava naquele quarto ou algo que fora pronunciado? Uma espada rara, á qual pertencia á Aldresh.

* * *

 

            Os espólios haviam sido repartidos por Vrendon. Ele entregou á cada, partes iguais de ouro. Hikan se concentrava em sua espada. Morgana e Jirga explicaram á ele ser uma espada rara: uma das Serpentes Elementais. Aquele era a Serpente de Raios. O paladino sentiu que havia mais três pessoas a sentir aquela arma:

            Um grande meio-orc de olhos azuis, liderava um pequeno exercito de orcs contra uma tribo de elfos. Ele brandia uma espada ácida semelhante á dele. O orc olhou para a espada e falou a palavra: Hikan – Hikan falou: Grontapes.

            Uma amazona cavalgava com seu pégaso as montanhas lemurianas. Ela perseguia algumas harpias que haviam roubado algumas joias de seus patronos. Ela parou por um instante olhou para sua espada ácida e falou: Hikan – Hikan pronunciou: Zirqaelli.

            Um guerreiro de pele negra de lutava com sua espada ácida contra um ogro. Ele pulou nas costas do gigante, driblando seu golpe com o martelo gigante, e segurou-se em sua nuca e ergueu a espada e cravou atrás do pescoço dele e gritou: A próxima será em ti Hikan! – Hikan pronunciou – Oxukraa;

– O que você falou? – perguntou Sirvik ao paladino.

– Falei que devemos seguir as pistas que tivemos no covil do Troll – respondeu Hikan sugerindo novo assunto.

– Estas falando do Impronunciável – falou Andrius.

– Sim acho que ele é um mal que deve ser combatido – comentou Hikan – e ele serve a Ixchel.

– Então vamos atrás dele – falou Alice, causando espanto a todos – Estou sempre contra Ixchel – falou seria.

– Que seja – Disse Vrendon – Minha espada estará sempre contigo meu amigo Hikan.

– Eu não preciso nem dizer – falou Sirvik.

Jirga sorriu para ele e falou com Morgana.

– E nós, amiga?

– Acho que apreendi muito mais naquele pântano do que meses dentro de uma universidade – respondeu a fada – Vamos seguir com vocês, por hora.

– És sempre bem vinda mylady – falou Vrendon sorrindo.

Andrius levantou-se

– bem eu não estou fazendo nada por aqui e estou com vontade conhecer o mundo. E o cara que eu confiei e imaginei ser uma referencia para mim acabou de roubar toda minha glória – ele suspirou – vamos procurara este cara então. Impronunciável… Por que será que ele tem este nome?

Todos ficaram pensando por um tempo.

Aventura – A Última Balada – Sessão II

            Há três anos Hikam havia saído da Khalenita para conhecer o mundo. O fiel paladino de Anssis estava em uma cruzada de autoconhecimento e prova de seus valores – contudo não havia adquirido a experiência desejada por sua ordem. Conhecera muitos reinos. Aliou-se á alguns homens e mulheres durante sua jornada; muitos deles, mesquinhos e mentirosos. Ninguém que valesse a pena se aliar; Talvez pela absurda sinceridade é que ele se aliara ao mercenário Silvik Nelshirom: um homem simples com desejos simples – ganhar dinheiro a custo do próprio trabalho.

            No início Hikam fora cauteloso com Silvik – o guerreiro pensava muito em dinheiro, gastava ouro com bebidas e festas. No entanto, quando a oportunidade de pegar um trabalho sujo, este recusou de imediato. Aos poucos o paladino da Luz percebeu que havia mais do que uma espada pronta para a batalha no guerreiro: havia coração e lealdade, e isto.

            Nelshirom conseguiu um trabalho para escoltar um comerciante de tapetes em Melgorrona para Trindade. Hikam a principio não gostou da ideia de ir á Trindade durante o Raqaleu. Mas o mercenário o convenceu com facilidade.

            – Muitas pessoas comemorando. Se algo sair do controle, ninguém vai querer se envolver – ele sorriu para o paladino – Ai entramos para salvar o dia.

            A viagem para Trindade prosseguiu sem problemas e já na cidade o guerreiro conseguiu um novo trabalho – Segurança de um bardo na taverna do Alquimista Borracho.

 

* * *

 A taverna do Alquimista Borracho vivia um pesadelo. Carmen Dimitriel havia sido sequestrada. Pajo Lebre, o alquimista, havia chamado alguns de seus guarda costas para investigar. Irritado, ele discutia com o chefe da guarda e o prefeito.

Enquanto isto, Andrius, percebia uma oportunidade – salvar a barda mais famosa do mundo e entrar para a história de Trindade. Mas para isto era necessário investigar o camarim: ele precisava passar pelos guardas.

– Como farei isto? – pensou ele falando alto.

– Deixe isto comigo – Respondeu Morgana caminhando até o meio do salão cheio de guardas e soldados da milícia.

Rapidamente ela encenou um mal estar e foi socorrida imediatamente por Silvik. Os demais homens também trataram de ajudar a bela fada a se sentar e pegar um ar. Enquanto isto Andrius fugia pelas costas destes. Coincidentemente a luz de um dos lampiões refletiu em sua direção, fazendo com que Hikam o percebesse. O paladino decidiu seguir o ladrão ao invés de entrega-lo ás autoridades.

            Andrius chegou ao camarim e tratou de procurar evidencias. Logo foi surpreendido por Hikam, mas este também estava interessado em resgatar a jovem barda, e tratou de guardar a porta para que o trindadiano pudesse investigar o local: havia roupas espalhadas por todos os lados, arranhões de garras, marcas de pegadas reptilianas e muita confusão. Os sequestradores haviam sido eficientes e rápidos e fugido por um duto que passava por baixo do salão da taverna.

            – Vamos embora que tá chegando gente – avisou Hikam.

            Andrius se apressou para sair, mas antes pegou uma amostra da terra que deixara marcas de pegadas no tapete e um pingente dourado em forma de pirâmide.

            – vamos.

 

* * *

 

            Reunidos, Andrius apresentou Hikan para Morgana, Alice e Jirga. Analisaram em conjunto a pista de terra e Morgana avaliou se tratar de terra pantanosa. Só havia um pântano próximo de Trindade, e era um lugar perfeito para sequestro, pois se distanciava de rotas comerciais.

            Hikan chamou Silvik para que este participasse dessa aventura e o mercenário convenceu Andrius que era necessário negociar uma recompensa antes. O paladino não pensava no ouro e desgostou da ideia inicialmente, mas o guerreiro e o ladino o convenceram de que um bom “patrocínio” se fazia necessário para o futuro. Assim eles foram procurar o Bardo de Trindade na taverna do Canto da Sereia – todos na cidade sabiam que este era grande amigo de Carmen.

            Enquanto isto, Alice retirou-se para descansar antes da jornada. Já Morgana e Jirga foram juntar suas coisas. A fada sabia que a nobre maga possuía uma pequena coleção de pergaminhos e desejava fazer uso deste material para a aventura; Jirga não se opôs a ceder alguns – Egoísmo não era um defeito seu.

            Andrius e Hikan conversaram sobre o rapto com o Bardo de Trindade. Era um goblin muito asseado, mas ainda era um goblin. Ele estava muito abalado com o revés de sua colega e não conseguia concentrar-se com os aventureiros. Foi então que Aldresh, o ladrão mais famoso do continente negociou uma ótima soma em dinheiro pelo resgate – agora devidamente ‘patrocinados’ eles partiram para o pântano.

           

* * *

            Como era de se esperar, muitos aventureiros jovens partiram na jornada – um grupo morreu em uma armadilha feita com rochas abaixo de um túnel natural dentro de um barranco. Isto reforçou a ideia de Andrius em manter a cautela. Hikan e Sivirk aguardavam o momento certo para enterrar suas espadas em algo maligno. As duas magas recuavam junto com a druidisa e seu lobo feroz.

            Os rastros levaram até um acampamento de Homens Lagartos. Já havia desconfiança quanto aos raptores da barda e agora pareciam estar no caminho certo. O ladino Andrius tentou aproximar-se sem fazer barulho – péssimo, ele resvalou em algumas pedras e fez um barulho que colocou todos no acampamento de pé – contudo os lagartos recuaram para um feda no lado oposto aos aventureiros.

            Morgana e Alice trataram de procurar vestígios nas barracas. Sirvic ficou de guarda com Jirga – ela se recusara a entrar em alguma daquelas ‘malocas’ -. Enquanto isto o paladino arriscou-se até a fenda; Havia dois homens lagartos jovens, no fundo podia ver algumas fêmeas e crianças: – Aquilo não era um acampamento militar e sim uma tribo aguardando seus machos.

            Hikan tentou negociar informações com os lagartos adolescentes, eles pareciam hostis e muito belicosos para mostrarem os seus valores, contudo ainda eram jovens. E por isto uma mulher lagarto, imponente, saiu da fenda para falar com o paladino. Ela detinha o título de espoas do líder e para o paladino pareceu razoável acreditar em duas palavras: Lizerti era seu nome; a esposa de Givertrix.

            Sirvic tirou o elmo para mostrar respeito: ele já havia lutado contra e a favor do homem lagarto – mas ele preferiu não contar a ninguém sobre isto -. Contudo ele sabia que o guerreiro lagarto era um individuo valoroso e muito forte.

            Lizerti contou que o pântano era dos lagartos e estava lá em paz com os humanos de Trindade há anos. Contudo havia um grande mal, algo que se apoderou do lugar tirando a liberdade de seu povo. Seu esposo havia raptado a barda sim, mas ele trabalhava a favor daquele que lhes roubou o lar: – Parecia simples ao paladino. Destrua o mal e salve a barda.

            Contudo a arrogância, típica de uma rainha, de Lizerti combinada ao pavio curto de Alice causou uma situação vil ao encontro. E quase não acabou em um banho de sangue se não fosse à habilidade diplomática do clédio.

           

* * *

 

            O encontro com Givertrix e seus homens, aconteceu no pior momento: havia outro grupo de aventureiros que o tinham encontrado antes. Os sons de espadas e machados ecoavam por todo lugar. Não tendo lado, os grupos teve que partir para o combate misto. Sirvik entrou derrubando um humano com uma besta logo na entrada. Jirga lhe dava cobertura paralisando-o antes de qualquer reação. Andrius buscava um melhor lugar para atacar, mas parecia que não era seu dia. O lobo de Alice voava hora sobre lagartos e depois humanos. A magia da fada Morgana lançava-se ao alto e chocava-se nas falhas das armaduras de seus inimigos – enquanto Hikan avançava lutando com sua espada.

            Aos poucos o combate triplo mostrou que o último grupo era mesmo o vitorioso, mas durante um embate com uma humana de cabelos curtos e uma letra ‘W’ no rosto – Andrius reconheceu-a na hora – o grande Givertrix morreu junto de sua filha. O único sobrevivente lagarto negociou uma morte de guerreiro por informações: Hikan concordou e fez sinal para Sirvic que puxou a espada e se pós ao lado do guerreiro lagarto ferido e ajoelhado ao chão.

            – A barda foi entregue á um Troll que vive no meio do pântano – ele olhou para Sirvic – Angreifer me recebe em seu lar – gritou furioso e Sirvic o decaptou.

            O corpo caiu e bateu no chão e a cabeça rolou dois passos à frente. Sirvik ajoelhou-se e colocou uma mão no ombro e outra em seu próprio peito:

– Siga as chamas do senhor da guerra meu irmão de batalha. E no futuro lutaremos lado a lado sob a bandeira de nosso deus – falou Sirvic sentindo as palavras. Hikan colocou a mão em seu ombro e abençoou o momento em nome da deusa da luz.

Enquanto isto, não muito afim dos sentimentalismos de guerreiros, Alice e Andrius vasculhavam o local. Havia uma toca onde os homens lagartos estavam guardando seus tesouros. O ladino abriu, mas surpreendeu-se por encontrar a ladra com o “W” no rosto. Ela os intimidou com o olhar, Andrius segurou o braço de Alice que amaldiçoou, em seu intimo, Ixchel por deixá-la tão vulnerável.

A ladra pegou o que procurava e encarou os dois e saiu.

– Fiquem com as migalhas, pois o pão é meu.

Ela partiu. Andrius sentiu que esta não seria a ultima vez que a veria.

 

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Investigando o local, Hikan encontrara um colar que Givertrix usava em homenagem a esposa: era um objeto de amor. O justo paladino levou a joia até Lizerti que comovida o presenteou com um colar de conchas que simbolizava o apreço dos lagartos ao humano.

Vasculhando o pântano em busca da barda o grupo fora surpreendido por uma enorme aranha monstruosa. Ela espreitou o grupo de maneira furtiva, e quase pegou Morgana; Mas para sorte da fada Vrendon surgiu e arrancou uma pata do monstro que se refugiou para seu covil. O cavaleiro estava ferido – pela própria aranha mesmo – e necessitava de cuidados. Jirga ficou com ele, enquanto os demais seguiam para o covil. Antes Sirvic se despediu carinhosamente da maga litarminiana – havia amor no ar.

Os aventureiros encontraram um druida lagarto que reconheceu o colar dado ao paladino por Lizerti. Mostrou onde se escondia o troll e ainda usou alguns de seus incensos para recuperar os ferimentos de todos: Inclusive Vrendon.

Agora o grupo estava pronto para o Troll.

 

PERSONAGENS

Hikan – Daniel Ribas

Andrius – Alex Silva

Morgana – Melissa

Alice – Rafael Morais