Prelúdio II – Aventura Sombras de uma Palavra não Dita

Os sons de espadas batendo em escudos, cavalos relinchando e gritos de dor e agonia, tomavam conta da praia. Cercado por vinte inimigos Stillgar disparou um raio da ponta dos dedos atingindo com força metade dos soldados trajados de armadura negra. Ele recuou procurando abrigo nas rochas enquanto os demais homens marchavam vagarosamente em sua direção com escudos empunhados. Eles já haviam dado cabo de seus guerreiros – quinze – foram massacrados, não tiveram chances. E agora parecia que as magias que ele aprendera a tanto custo não faziam efeito nestes homens: – Seriam os homens do Impronunciável, invencíveis?

Um riso infantil lhe chamou a atenção, ele olhou imediatamente para uma fenda entre as rochas, e enfiada em panos estava uma criança de três anos. Ela sorriu com os olhos azuis vidrados nele e ele sorriu de volta. Voltou-se para os homens e pensou – Invencíveis ou não haverão de morrer nesta praia.

Stillgar puxou o cajado de vitro e se preparou para mais um combate.

– Venham malditos – gritou o mago enfurecido.

Os dois mais adiantados se arriscaram em sua direção, mas antes que eles se aproximassem, Stillgar disparou um leque de fogo que os incendiou, mas antes mesmo que pudessem se defender uma magia adicional foi lançada pelo mago e as pernas dos homens se tornaram pedras. Sem chance de esquivar ou se jogarem ao chão para apagar as chamas os homens viraram churrasco a frente de seus companheiros.

Um dos soldados restantes gritou para os demais homens atacarem: Cinco partiram para cima do mago, ele mirou o cajado neles e lançou uma teia negra que prendeu os cinco de uma só vez, mas antes uma magia surgiu e aqueceu os metais de suas armaduras e espadas. Atados e com as peles queimando pelo próprio aço que deveria lhes proteger, restava apenas gritar.

Gritos de homens incendiando, gritos de homens presos em aço derretido. Os três soldados que restavam encaravam o mago com relutância. Ele sorriu para eles.

– Venham malditos – gritou novamente, estava feliz, pois suas magias pareciam que finalmente estavam fazendo efeito.

Só que eles não vieram. Apenas observaram seus amigos morrerem sem nenhuma reação. Até que um grupo de cavaleiros chegou à praia. Liderados por uma mulher loira com metade do cabelo raspado e a outra comprida: – Valinoria! – falou Stillgar baixinho.

[- Sim! – a voz feminina ecoava em sua mente – Renda-se meu antigo amigo. Entregue a miúda e vamos fazer as pazes.]

[- Não tenho esta intenção Valinoria. Enterrarei você e todos seus lacaios nas areias desta praia ou morrerei tentanto.]

[- Um desperdício de talento em minha opinião, mas quem sou eu para negar isto á um moribundo?]

Ela parou o cavalo á alguns metros do mago e os seus lacaios a seguiram. Todos usavam armaduras completas com elmos fechados; Não era possível identifica-los e Stillgar ficou pensando se um deles não poderia ser o tal Impronunciável. Na verdade, mesmo que eles estivessem sem elmos, assim mesmo, ele não o reconheceria: ele nunca o havia visto. E nunca conhecera ninguém que o tenha visto: – Estranho… – pensou ele.

[- Última chance – falou ela novamente em sua mente – Jogue o cajado e entregue a criança e lhe darei a chance de morrer rapidamente.]

[- Tenho outra proposta – outra voz, também feminina ecoou na mente deles, todos eles – Você e todos os seus lacaios se rendem, dão meia volta e vão até o líder de vocês e o assassinam. E talvez assim os deixe viver.]

Ouve uma agitação entre os soldados.

– A bruxa ruiva – gritou um dos cavaleiros – eu conheço esta voz…

Miner! – falou Stillgar para si mesmo, ele sorriu com a virada.

Valinoria por sua vez ficou observando o ambiente.

[- Você nãos estás aqui rapariga! – a voz da maga loira e corte exótico ecoou na mente de Stillgar também – Sei que não estás!]

[- Sim! – falou a voz, agora ouvida por todos – Estou há dez mil quilômetros, mas posso manter minha palavra…].

[- Zork – a voz de Miner ecoou na mente de um dos soldados, Zork – Tu temes a morte?]

            – Não, por favor! – clamou Zork gritando para os céus, todos olharam para ele, havia lágrimas em seus olhos – Isto é injusto…

            – Sai da mente dele bruxa – gritou outro guarda para os céus.

            – Parem! – Gritou Valinoria para os lacaios – Ela não é uma deusa. Está só a voz manipular!

            [- Manipular? – Miner gargalhou na mente de todos – Então vou matar Zork e provar meu poder].

            – Não, por favor! – gritou Zork – Eu imploro…

            [- Mate-a! – gritou Miner para Zork – Ou morras com minha palavra!]

            Zork parou, olhou para Valinoria. Imediatamente dois homens se colocaram a frente da maga. Logo mais cinco soldados colocaram as mãos nas cabeças. Eles suplicaram baixinho e logo voltaram sua atenção para ela também.

            – Protejam Valinoria – gritou o cavaleiro no comando.

            Uma rebelião se iniciou e os cavaleiros – antes unidos ao comando de Valinoria – começaram a lutar contra seus superiores pelo direito de viver.

            [- Pegue-a Stillgar – falou Miner para o mago – Para o oeste!]

            Stillgar correu até a criança e a pegou com cuidado. Um dos cavaleiros que retirava a espada de dentro das entranhas de um dos rebeldes gritou: – O mago está fugindo – Ele não deu importância e correu em direção ao oeste. Pronunciou algumas palavras e a areia subiu por baixo de suas pernas e um cavalo de areia se formou, levando-o para longe.

            – Peguem-no! – Gritou Valinoria, olhando para o ultimo rebelde sendo morto.

            O mago cavalgou com velocidade, os cavaleiros estavam muito atrás. Porém logo avistou um novo reforço vindo: Mais duas dúzias de cavaleiros.

            – Onde será que eles acham tanta gente para contratar? – Resmungou o mago que cavalgava em direção ao oeste até ver que havia um cavaleiro vindo de encontro a ele nesta mesma direção – Maldição! – gritou ele esticando o cajado para este.

            – Não! – falou a pequena criança em seu colo fazendo um afago em seu queixo – Ela é boa!

            O mago parou e o cavaleiro, que era na verdade uma mulher parou a sua frente. Soltou o capuz negro para traz e mostrou o rosto de Ilita a ladra.

            – Stillgar! – falou ela sorrindo e olhando rapidamente para a direção que ele vinha – parece que tens companhia.

            – Sabe como é né – falou ele sorrindo – ‘Ex’ é sempre um problema.

            – Eu que o diga! – falou ela rindo.

            – Não temos tempo a perder – O mago lhe entregou a criança – Siga para o oeste.

            – Sim ela falou comigo já. E tu mago?

            – Eu? – ele sorriu e virou o cavalo de areia para a direção do exercito que o seguia – Eu vou assinar os papeis do divorcio.

            O mago partiu para cima do exercito. E Ilita para o oeste.

 

* * *

 

            Já havia anoitecido e Cahethel deu uma ultima ordem ao capitão do turno da noite. Ele bateu continência ao herói e partiu para seu turno.

Exausto por mais um dia que chegava ao seu fim, Cahethel recolheu-se até o escritório ao lado do alojamento. Tirou a capa, dobrou e desfivelou as amarras de sua armadura. Finalmente sentou-se em uma poltrona em frente á uma mesinha de centro. Puxou uma caixa de madeira e retirou uma cigarrilha e acendeu.

            Deu duas tragadas, soltou a fumaça e ouviu uma batida na porta.

            – Entre – respondeu para a batida.

            Entrou um homem com heterocromia (um olho azul e outro verde), cabelos negros e barba rala. Tinha a atitude nobre e o porte de um guerreiro: era Akille Chamouth; Ele deu um meio sorriso para Cahethel que retribuiu e apontou para outra poltrona; este aceitou e sentou-se.

            – Vinho?

            – Não obrigado! – respondeu sério. Ofereceu as cigarrilhas, mas ele fez um gesto negativo com a cabeça – Estou um pouco enjoado – explicou.

            – Entendo – Cahethel deu mais uma tragada. Suspirou, era uma ótima erva esta – Recebemos um grupo hoje.

            – Ouvi falar – respondeu – Os soldados só falam em uma fada. Tive até dificuldades de descobrir que havia outros com ela.

            – Sim! Eles ficam sempre eufóricos com mulheres, principalmente fadas. Mas ela é bonita mesmo.

            – Se ela fosse feia eu me interessaria em conhecer – respondeu Akille – Uma fada bonita é só mais uma fada. Estou mais interessado no que dizem que eles trouxeram.

            – A Criança?

            – Sim – respondeu ríspido – Sabe quem ela é?

            – Queres saber se eu recebi a mensagem? – perguntou Cahethel sem delongas. Akille fez um sinal de positivo com a cabeça – Sim. Ela falou comigo também. Acho que falou com todos nós.

            – Eles mataram Stillgar?

            – Temo que sim.

            – Mas não tens certeza?

            – Não! – ele apagou o toco da cigarrilha num cinzeiro em forma de cavalo sob a mesa – Irás atrás dele, não?

            – Sim – ele fez uma pausa – Mas antes me fale do grupo. Eles são de confiança?

            – Acho que sim. É cedo.

            – Fiquei sabendo que eles salvaram tua irmã em Trindade. Apesar de jovens parecem ser determinados.

            – Ouvi falar disto – Cahethel sorriu e completou – Ouvi falar da historia de Aldresh também.

            Os dois riram como se achassem graça de uma piada.

            – Ele está conosco? – Akille perguntou como se recordasse do assunto.

            – Quem sabe? – evasivo, ele prosseguiu falando – Mas voltando aos garotos. Além da fada tem um ladrão de Trindade mesmo.

            – Andrius não é? Levantei a ficha dele, era de uma guilda né? Está envolvido com suborno, espionagem e assassinatos.

            – Quem não está em Trindade? – desafiou Cahethel.

            – Verdade. É bom ficar de olho.

            – Coloquei Wesnayke nesta função.

            – E o Clédio? O Grandão?

            – Sim! Acho que pode ser uma boa aquisição. É ligado a Brigith, tem virtude e parece que tem uma facilidade para encontrar bons amigos – ele fez uma pausa e puxou um garrafão de vinho sob a mesa e serviu, ofereceu a Akille; que agora aceitou – Sirvik parece que é um mercenário, mas tem ótimos reflexos. Conversei com dois homens que servirão com ele em guerra. Já participou de algumas missões, mas parece que sempre coloca seus valores morais frente ao dinheiro que recebe.

            – Isto é bom! – Akille bebeu um gole – e o cavaleiro?

            – Segundo o clédio, este morreu ontem à tarde.

            – Lamentável – falou com pesar – Será o mesmo Vrendon de Guelrom?

            – Acredito que sim – Cahethel bebeu mais um gole de vinho – Tem uma maga litarminiana. Jirga. Não consegui nada dela.

            – Vou ver com a Isa. Aquela ilha é dela, ela deve saber algo dela ainda mais sendo maga.

            – Sim – ele sorriu agradecido – O lagarto parece que é da tribo do Givertrix.

            – Givertrix? Deuses ele ainda vive?

            – Não! Parece que morreu.

            – Humm – suspirou Akille – Muitas pessoas estão morrendo. E como eles chegaram aqui.

            – Parece que ao resgatar Carmen eles descobriram um covil de um Troll. Este servia ao Impronunciável, o algoz de Ixchel. O tal Hikan está atrás dele agora para destruí-lo. E parece que os outros o seguem.

            – Parece que nenhum deles conhece a historia do Impronunciável?

            – Verdade – Cahethel sorriu – Mas eles não são do tipo que tem medo. Eles enfrentaram Sirëthar na floresta, e foi assim que Vrendon morreu. E o tal Sirvik ficou cego.

            – Sirëthar – Akille ficou pensando.

            – Sim – respondeu observando o riorniano – Antes parece que eles viram uma mulher em fuga e ela estava com a criança. Fugia dos asseclas sombrios.

            – Ilita.

            – Exato – respondeu – Mandou a mensagem para Endon?

            – Sim. Ele está a caminho. Estávamos juntos quando recebemos a mensagem de Miner. E o que mais precisamos saber sobre eles?

            – Acho que mais nada. Nossos informantes já levantaram tudo.

            – São confiáveis para ficarem com a criança?

            – Terão de ser. Não temos tempo para isto – respondeu Cahethel sério.

            – Sim. Deixe-os treinando. Eu cuido do tal Sirvik. Encaminhe Azhaela pra o clédio. E mande Wesnayke ficar de olho no tal Andrius.

            – Quando retornarás para Riornia?

            – Em um ano. Estamos preparando um plano – Akille levantou-se e olhou para Cahethel – E tu? Vais atrás dela?

            – Creio que sim!

            – Precisarás de ajuda.

            – Precisarei de ajuda com tua irmã – respondeu Cahethel sério – Miner disse que ela não me deixará chegar á serra.

            – Eu também acredito que não – ele suspirou novamente – mas é o teu destino e o dela.

            – Vocês riornianos creem muito em destino.

            – Não – falou sério – Nós cremos apenas nisto.

            Akille deu as costas. E antes de sair falou:

            – Sinceramente meu amigo – os olhos de duas cores brilhavam na escuridão – Eu espero que ela te mate. Para que eu não precise fazê-lo no futuro. Estamos ligados pelo ódio e pela amizade. Quando tudo acabar, terei que vingar a morte do meu irmão – Akille deu uma engasgada, Cahethel apenas o encarava com seriedade – Gostaria de poder vingar a morde de Traumat. Mas Digared precisa de ti. E eu preciso de ti – ele parou, Cahethel fez menção a falar alguma coisa – Não quero ter que vingar a morte de Adina – as palavras de Akille pareciam possuir um grande pesar e medo.

            – Eu entendo – havia lágrimas nos olhos azuis de Cahethel. Ele sentia a falta de Traumat. Seu irmão de batalha, seu amigo. Amigo que fora obrigado a matar durante a guerra de Claymor contra Riornia. O mesmo amigo que havia matado sua irmã Carenth. Havia dor nas historias de Dimitriel e Chamouth. Duas famílias nascidas para dar fim a seus filhos. Mas havia a amizade e ela estava sendo vivida pelos dois heróis. Eles podiam desfrutar dela durante este período onde ambos possuíam inimigos maiores em comum.

            – Como está Laura e as crianças – perguntou Akille engasgando.

            – Estão bem – Cahethel sorriu – E Lizark e Jammielle?

            – Tão enormes. Jammielle já consegue empunhar uma espada. Acho que vai ser uma amazona no futuro.

            – Ótimo! – sorriu Cahethel – Talvez…

            Ele não continuou: – “Talvez um dia possamos reunir todos” – Não. Este não era o destino deles. Havia sangue em seus caminhos. E se não fosse Adina a matar Cahethel, seria Akille ou quem sabe Jammielle.

            Eles não se despediram.

 

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