Prelúdio II – Aventura Sombras de uma Palavra não Dita

Os sons de espadas batendo em escudos, cavalos relinchando e gritos de dor e agonia, tomavam conta da praia. Cercado por vinte inimigos Stillgar disparou um raio da ponta dos dedos atingindo com força metade dos soldados trajados de armadura negra. Ele recuou procurando abrigo nas rochas enquanto os demais homens marchavam vagarosamente em sua direção com escudos empunhados. Eles já haviam dado cabo de seus guerreiros – quinze – foram massacrados, não tiveram chances. E agora parecia que as magias que ele aprendera a tanto custo não faziam efeito nestes homens: – Seriam os homens do Impronunciável, invencíveis?

Um riso infantil lhe chamou a atenção, ele olhou imediatamente para uma fenda entre as rochas, e enfiada em panos estava uma criança de três anos. Ela sorriu com os olhos azuis vidrados nele e ele sorriu de volta. Voltou-se para os homens e pensou – Invencíveis ou não haverão de morrer nesta praia.

Stillgar puxou o cajado de vitro e se preparou para mais um combate.

– Venham malditos – gritou o mago enfurecido.

Os dois mais adiantados se arriscaram em sua direção, mas antes que eles se aproximassem, Stillgar disparou um leque de fogo que os incendiou, mas antes mesmo que pudessem se defender uma magia adicional foi lançada pelo mago e as pernas dos homens se tornaram pedras. Sem chance de esquivar ou se jogarem ao chão para apagar as chamas os homens viraram churrasco a frente de seus companheiros.

Um dos soldados restantes gritou para os demais homens atacarem: Cinco partiram para cima do mago, ele mirou o cajado neles e lançou uma teia negra que prendeu os cinco de uma só vez, mas antes uma magia surgiu e aqueceu os metais de suas armaduras e espadas. Atados e com as peles queimando pelo próprio aço que deveria lhes proteger, restava apenas gritar.

Gritos de homens incendiando, gritos de homens presos em aço derretido. Os três soldados que restavam encaravam o mago com relutância. Ele sorriu para eles.

– Venham malditos – gritou novamente, estava feliz, pois suas magias pareciam que finalmente estavam fazendo efeito.

Só que eles não vieram. Apenas observaram seus amigos morrerem sem nenhuma reação. Até que um grupo de cavaleiros chegou à praia. Liderados por uma mulher loira com metade do cabelo raspado e a outra comprida: – Valinoria! – falou Stillgar baixinho.

[- Sim! – a voz feminina ecoava em sua mente – Renda-se meu antigo amigo. Entregue a miúda e vamos fazer as pazes.]

[- Não tenho esta intenção Valinoria. Enterrarei você e todos seus lacaios nas areias desta praia ou morrerei tentanto.]

[- Um desperdício de talento em minha opinião, mas quem sou eu para negar isto á um moribundo?]

Ela parou o cavalo á alguns metros do mago e os seus lacaios a seguiram. Todos usavam armaduras completas com elmos fechados; Não era possível identifica-los e Stillgar ficou pensando se um deles não poderia ser o tal Impronunciável. Na verdade, mesmo que eles estivessem sem elmos, assim mesmo, ele não o reconheceria: ele nunca o havia visto. E nunca conhecera ninguém que o tenha visto: – Estranho… – pensou ele.

[- Última chance – falou ela novamente em sua mente – Jogue o cajado e entregue a criança e lhe darei a chance de morrer rapidamente.]

[- Tenho outra proposta – outra voz, também feminina ecoou na mente deles, todos eles – Você e todos os seus lacaios se rendem, dão meia volta e vão até o líder de vocês e o assassinam. E talvez assim os deixe viver.]

Ouve uma agitação entre os soldados.

– A bruxa ruiva – gritou um dos cavaleiros – eu conheço esta voz…

Miner! – falou Stillgar para si mesmo, ele sorriu com a virada.

Valinoria por sua vez ficou observando o ambiente.

[- Você nãos estás aqui rapariga! – a voz da maga loira e corte exótico ecoou na mente de Stillgar também – Sei que não estás!]

[- Sim! – falou a voz, agora ouvida por todos – Estou há dez mil quilômetros, mas posso manter minha palavra…].

[- Zork – a voz de Miner ecoou na mente de um dos soldados, Zork – Tu temes a morte?]

            – Não, por favor! – clamou Zork gritando para os céus, todos olharam para ele, havia lágrimas em seus olhos – Isto é injusto…

            – Sai da mente dele bruxa – gritou outro guarda para os céus.

            – Parem! – Gritou Valinoria para os lacaios – Ela não é uma deusa. Está só a voz manipular!

            [- Manipular? – Miner gargalhou na mente de todos – Então vou matar Zork e provar meu poder].

            – Não, por favor! – gritou Zork – Eu imploro…

            [- Mate-a! – gritou Miner para Zork – Ou morras com minha palavra!]

            Zork parou, olhou para Valinoria. Imediatamente dois homens se colocaram a frente da maga. Logo mais cinco soldados colocaram as mãos nas cabeças. Eles suplicaram baixinho e logo voltaram sua atenção para ela também.

            – Protejam Valinoria – gritou o cavaleiro no comando.

            Uma rebelião se iniciou e os cavaleiros – antes unidos ao comando de Valinoria – começaram a lutar contra seus superiores pelo direito de viver.

            [- Pegue-a Stillgar – falou Miner para o mago – Para o oeste!]

            Stillgar correu até a criança e a pegou com cuidado. Um dos cavaleiros que retirava a espada de dentro das entranhas de um dos rebeldes gritou: – O mago está fugindo – Ele não deu importância e correu em direção ao oeste. Pronunciou algumas palavras e a areia subiu por baixo de suas pernas e um cavalo de areia se formou, levando-o para longe.

            – Peguem-no! – Gritou Valinoria, olhando para o ultimo rebelde sendo morto.

            O mago cavalgou com velocidade, os cavaleiros estavam muito atrás. Porém logo avistou um novo reforço vindo: Mais duas dúzias de cavaleiros.

            – Onde será que eles acham tanta gente para contratar? – Resmungou o mago que cavalgava em direção ao oeste até ver que havia um cavaleiro vindo de encontro a ele nesta mesma direção – Maldição! – gritou ele esticando o cajado para este.

            – Não! – falou a pequena criança em seu colo fazendo um afago em seu queixo – Ela é boa!

            O mago parou e o cavaleiro, que era na verdade uma mulher parou a sua frente. Soltou o capuz negro para traz e mostrou o rosto de Ilita a ladra.

            – Stillgar! – falou ela sorrindo e olhando rapidamente para a direção que ele vinha – parece que tens companhia.

            – Sabe como é né – falou ele sorrindo – ‘Ex’ é sempre um problema.

            – Eu que o diga! – falou ela rindo.

            – Não temos tempo a perder – O mago lhe entregou a criança – Siga para o oeste.

            – Sim ela falou comigo já. E tu mago?

            – Eu? – ele sorriu e virou o cavalo de areia para a direção do exercito que o seguia – Eu vou assinar os papeis do divorcio.

            O mago partiu para cima do exercito. E Ilita para o oeste.

 

* * *

 

            Já havia anoitecido e Cahethel deu uma ultima ordem ao capitão do turno da noite. Ele bateu continência ao herói e partiu para seu turno.

Exausto por mais um dia que chegava ao seu fim, Cahethel recolheu-se até o escritório ao lado do alojamento. Tirou a capa, dobrou e desfivelou as amarras de sua armadura. Finalmente sentou-se em uma poltrona em frente á uma mesinha de centro. Puxou uma caixa de madeira e retirou uma cigarrilha e acendeu.

            Deu duas tragadas, soltou a fumaça e ouviu uma batida na porta.

            – Entre – respondeu para a batida.

            Entrou um homem com heterocromia (um olho azul e outro verde), cabelos negros e barba rala. Tinha a atitude nobre e o porte de um guerreiro: era Akille Chamouth; Ele deu um meio sorriso para Cahethel que retribuiu e apontou para outra poltrona; este aceitou e sentou-se.

            – Vinho?

            – Não obrigado! – respondeu sério. Ofereceu as cigarrilhas, mas ele fez um gesto negativo com a cabeça – Estou um pouco enjoado – explicou.

            – Entendo – Cahethel deu mais uma tragada. Suspirou, era uma ótima erva esta – Recebemos um grupo hoje.

            – Ouvi falar – respondeu – Os soldados só falam em uma fada. Tive até dificuldades de descobrir que havia outros com ela.

            – Sim! Eles ficam sempre eufóricos com mulheres, principalmente fadas. Mas ela é bonita mesmo.

            – Se ela fosse feia eu me interessaria em conhecer – respondeu Akille – Uma fada bonita é só mais uma fada. Estou mais interessado no que dizem que eles trouxeram.

            – A Criança?

            – Sim – respondeu ríspido – Sabe quem ela é?

            – Queres saber se eu recebi a mensagem? – perguntou Cahethel sem delongas. Akille fez um sinal de positivo com a cabeça – Sim. Ela falou comigo também. Acho que falou com todos nós.

            – Eles mataram Stillgar?

            – Temo que sim.

            – Mas não tens certeza?

            – Não! – ele apagou o toco da cigarrilha num cinzeiro em forma de cavalo sob a mesa – Irás atrás dele, não?

            – Sim – ele fez uma pausa – Mas antes me fale do grupo. Eles são de confiança?

            – Acho que sim. É cedo.

            – Fiquei sabendo que eles salvaram tua irmã em Trindade. Apesar de jovens parecem ser determinados.

            – Ouvi falar disto – Cahethel sorriu e completou – Ouvi falar da historia de Aldresh também.

            Os dois riram como se achassem graça de uma piada.

            – Ele está conosco? – Akille perguntou como se recordasse do assunto.

            – Quem sabe? – evasivo, ele prosseguiu falando – Mas voltando aos garotos. Além da fada tem um ladrão de Trindade mesmo.

            – Andrius não é? Levantei a ficha dele, era de uma guilda né? Está envolvido com suborno, espionagem e assassinatos.

            – Quem não está em Trindade? – desafiou Cahethel.

            – Verdade. É bom ficar de olho.

            – Coloquei Wesnayke nesta função.

            – E o Clédio? O Grandão?

            – Sim! Acho que pode ser uma boa aquisição. É ligado a Brigith, tem virtude e parece que tem uma facilidade para encontrar bons amigos – ele fez uma pausa e puxou um garrafão de vinho sob a mesa e serviu, ofereceu a Akille; que agora aceitou – Sirvik parece que é um mercenário, mas tem ótimos reflexos. Conversei com dois homens que servirão com ele em guerra. Já participou de algumas missões, mas parece que sempre coloca seus valores morais frente ao dinheiro que recebe.

            – Isto é bom! – Akille bebeu um gole – e o cavaleiro?

            – Segundo o clédio, este morreu ontem à tarde.

            – Lamentável – falou com pesar – Será o mesmo Vrendon de Guelrom?

            – Acredito que sim – Cahethel bebeu mais um gole de vinho – Tem uma maga litarminiana. Jirga. Não consegui nada dela.

            – Vou ver com a Isa. Aquela ilha é dela, ela deve saber algo dela ainda mais sendo maga.

            – Sim – ele sorriu agradecido – O lagarto parece que é da tribo do Givertrix.

            – Givertrix? Deuses ele ainda vive?

            – Não! Parece que morreu.

            – Humm – suspirou Akille – Muitas pessoas estão morrendo. E como eles chegaram aqui.

            – Parece que ao resgatar Carmen eles descobriram um covil de um Troll. Este servia ao Impronunciável, o algoz de Ixchel. O tal Hikan está atrás dele agora para destruí-lo. E parece que os outros o seguem.

            – Parece que nenhum deles conhece a historia do Impronunciável?

            – Verdade – Cahethel sorriu – Mas eles não são do tipo que tem medo. Eles enfrentaram Sirëthar na floresta, e foi assim que Vrendon morreu. E o tal Sirvik ficou cego.

            – Sirëthar – Akille ficou pensando.

            – Sim – respondeu observando o riorniano – Antes parece que eles viram uma mulher em fuga e ela estava com a criança. Fugia dos asseclas sombrios.

            – Ilita.

            – Exato – respondeu – Mandou a mensagem para Endon?

            – Sim. Ele está a caminho. Estávamos juntos quando recebemos a mensagem de Miner. E o que mais precisamos saber sobre eles?

            – Acho que mais nada. Nossos informantes já levantaram tudo.

            – São confiáveis para ficarem com a criança?

            – Terão de ser. Não temos tempo para isto – respondeu Cahethel sério.

            – Sim. Deixe-os treinando. Eu cuido do tal Sirvik. Encaminhe Azhaela pra o clédio. E mande Wesnayke ficar de olho no tal Andrius.

            – Quando retornarás para Riornia?

            – Em um ano. Estamos preparando um plano – Akille levantou-se e olhou para Cahethel – E tu? Vais atrás dela?

            – Creio que sim!

            – Precisarás de ajuda.

            – Precisarei de ajuda com tua irmã – respondeu Cahethel sério – Miner disse que ela não me deixará chegar á serra.

            – Eu também acredito que não – ele suspirou novamente – mas é o teu destino e o dela.

            – Vocês riornianos creem muito em destino.

            – Não – falou sério – Nós cremos apenas nisto.

            Akille deu as costas. E antes de sair falou:

            – Sinceramente meu amigo – os olhos de duas cores brilhavam na escuridão – Eu espero que ela te mate. Para que eu não precise fazê-lo no futuro. Estamos ligados pelo ódio e pela amizade. Quando tudo acabar, terei que vingar a morte do meu irmão – Akille deu uma engasgada, Cahethel apenas o encarava com seriedade – Gostaria de poder vingar a morde de Traumat. Mas Digared precisa de ti. E eu preciso de ti – ele parou, Cahethel fez menção a falar alguma coisa – Não quero ter que vingar a morte de Adina – as palavras de Akille pareciam possuir um grande pesar e medo.

            – Eu entendo – havia lágrimas nos olhos azuis de Cahethel. Ele sentia a falta de Traumat. Seu irmão de batalha, seu amigo. Amigo que fora obrigado a matar durante a guerra de Claymor contra Riornia. O mesmo amigo que havia matado sua irmã Carenth. Havia dor nas historias de Dimitriel e Chamouth. Duas famílias nascidas para dar fim a seus filhos. Mas havia a amizade e ela estava sendo vivida pelos dois heróis. Eles podiam desfrutar dela durante este período onde ambos possuíam inimigos maiores em comum.

            – Como está Laura e as crianças – perguntou Akille engasgando.

            – Estão bem – Cahethel sorriu – E Lizark e Jammielle?

            – Tão enormes. Jammielle já consegue empunhar uma espada. Acho que vai ser uma amazona no futuro.

            – Ótimo! – sorriu Cahethel – Talvez…

            Ele não continuou: – “Talvez um dia possamos reunir todos” – Não. Este não era o destino deles. Havia sangue em seus caminhos. E se não fosse Adina a matar Cahethel, seria Akille ou quem sabe Jammielle.

            Eles não se despediram.

 

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Prelúdio I – Aventura Sombras de uma Palavra não Dita

            A taverna do canto da sereia estava lotada. Era motivo de comemoração para todos trindadianos – Carmen Dimitriel estava de volta.

– Conte-nos Carmen – falou um dos fregueses que comemoravam o retorno da barda – como sir Aldresh a resgatou?

– ‘Sir’? – interrompeu Aldresh – não, sir eu deixo para os heróis de verdade como Akille, meu irmão Endon e o grande irmão de Carmen, Cahethel – ele bebeu mais um gole de água ardente – Sou apenas um homem apaixonado – ele sorriu para a barda que fez um sorriso tímido – Agi por impulso. Não por heroísmo. Não podia ficar sentado bebendo enquanto minha querida Carmen estava desaparecida.

A multidão delirou com a modéstia do mestiço.

– Não seja humilde sir Aldresh – falou outro homem erguendo os canecos – Fazemos um brinde ao grande herói sir Aldresh.

A multidão brindou e próprio também.

– Conte-nos Carmen – insistiu o homem – Queremos saber a história.

Carmen olhou para o mestiço e suspirou.

– Acho melhor o nosso herói contar – ela sorriu afagando seu rosto com doçura – por que não os entretém meu amor.

– Pois bem – ele sorriu e subiu no balcão – Quando fiquei sabendo do sequestro não me contive. Sai deste mesmo lugar onde estamos agora e busquei pistas sobre o desaparecimento da belíssima Carmen…

Ele prosseguia enquanto Carmen saia de fininho e retirava-se até seus aposentos.

 * * *

Carmen tocava seu violão sentado na cama, enrolada em uma toalha branca. Estava quente e por isto deixava a janela aberta e observava os sons do Raqaleu tomando a cidade. Era uma barda alegre e festeira, mas não estava a fim de comemorar hoje.

Uma batida na porta, seca.

– Entre querido! – falou ela um pouco rude. Aldresh entrou sorrindo, trazia consigo vinho e duas taças – Não achas que já bebeu o suficiente?

– Nunca é suficiente enquanto há bebida disponível – ele serviu uma das taças e entregou a ela que não recusou – Está chateada com algo? – Ela olhou séria para ele – Esta chateada por causa dos garotos?

– Chateada? Garotos! Pessoas morreram Al!

– Pessoas sempre morrem – ele suspirou e bebeu seu vinho e já serviu mais.

– Eu não te entendo, por que não fostes atrás de mim? Por que se arriscou colocando aqueles garotos no pântano.

– Faria alguma diferença para ti se eu tivesse estado lá?

– Faria – falou ela séria – mostraria que se importa que… – ela parou, pois ele levantou-se ríspido e balançando a cabeça – é a ruiva não é?

– Miner é passado – ele parou em frente à janela e ficou observando alguns jovens dançando em meio á um grupo de bardos.

Carmen arrumou a toalha no corpo e bebeu seu vinho.

– Não quero brigar – falou arrependida – Acho que…

– Como eles foram?

– Quem?

– Os garotos.

– Foram ótimos. Perfeitos – falou olhando para ele que mantinha-se debruçado á janela – O troll estava invisível e eles o atacaram unidos. Eram muitos é verdade, mas a maioria não tinha experiência – Ela parou um pouco – Alias. Acho que um deles encontrou algo lá.

– O que? – falou ele surpreso ainda olhando para fora.

– Uma espada – ela ficou olhando para o teto como se buscasse recordar algo – Lembra da espada do Krugër?

– A Serpente de Fogo? – Aldresh parecia agora um pouco inquieto.

– Sim. Soube uma vez que existem doze delas. Eu acho que eles encontraram uma.

– Sim, mas qual deles? – o mestiço parecia mais interessado agora.

– O clédio gigante – falou ela pensativa – sim ele mesmo. Deuses como aquele clédio é alto.

– Alto? – Aldresh sorriu – Ele é um paladino não é?

– Não falei muito com eles. Mas acho que é sim.

– Ele tem a espada?

– Sim acho que sim – ela parecia indecisa.

– E o ladrão?

– O que tem?

– Ele é bom?

– Sim – ela sorriu – Acho que será melhor do que você – ela começou a rir e ele a olhou sorrindo.

– É mesmo? – ele foi até ela e a abraçou e beijo seu pescoço – Aposto que ele não faz isto…

– Olha que acho que ele faz…

– Sua… – ele fez cocegas nela e a toalha caiu no chão.

Caiu no chão sobre uma espada. Uma espada rara, com uma luz fosca que parecia dispertada por algo. Algo que estava naquele quarto ou algo que fora pronunciado? Uma espada rara, á qual pertencia á Aldresh.

* * *

 

            Os espólios haviam sido repartidos por Vrendon. Ele entregou á cada, partes iguais de ouro. Hikan se concentrava em sua espada. Morgana e Jirga explicaram á ele ser uma espada rara: uma das Serpentes Elementais. Aquele era a Serpente de Raios. O paladino sentiu que havia mais três pessoas a sentir aquela arma:

            Um grande meio-orc de olhos azuis, liderava um pequeno exercito de orcs contra uma tribo de elfos. Ele brandia uma espada ácida semelhante á dele. O orc olhou para a espada e falou a palavra: Hikan – Hikan falou: Grontapes.

            Uma amazona cavalgava com seu pégaso as montanhas lemurianas. Ela perseguia algumas harpias que haviam roubado algumas joias de seus patronos. Ela parou por um instante olhou para sua espada ácida e falou: Hikan – Hikan pronunciou: Zirqaelli.

            Um guerreiro de pele negra de lutava com sua espada ácida contra um ogro. Ele pulou nas costas do gigante, driblando seu golpe com o martelo gigante, e segurou-se em sua nuca e ergueu a espada e cravou atrás do pescoço dele e gritou: A próxima será em ti Hikan! – Hikan pronunciou – Oxukraa;

– O que você falou? – perguntou Sirvik ao paladino.

– Falei que devemos seguir as pistas que tivemos no covil do Troll – respondeu Hikan sugerindo novo assunto.

– Estas falando do Impronunciável – falou Andrius.

– Sim acho que ele é um mal que deve ser combatido – comentou Hikan – e ele serve a Ixchel.

– Então vamos atrás dele – falou Alice, causando espanto a todos – Estou sempre contra Ixchel – falou seria.

– Que seja – Disse Vrendon – Minha espada estará sempre contigo meu amigo Hikan.

– Eu não preciso nem dizer – falou Sirvik.

Jirga sorriu para ele e falou com Morgana.

– E nós, amiga?

– Acho que apreendi muito mais naquele pântano do que meses dentro de uma universidade – respondeu a fada – Vamos seguir com vocês, por hora.

– És sempre bem vinda mylady – falou Vrendon sorrindo.

Andrius levantou-se

– bem eu não estou fazendo nada por aqui e estou com vontade conhecer o mundo. E o cara que eu confiei e imaginei ser uma referencia para mim acabou de roubar toda minha glória – ele suspirou – vamos procurara este cara então. Impronunciável… Por que será que ele tem este nome?

Todos ficaram pensando por um tempo.

Aventura – A Última Balada – Sessão II

            Há três anos Hikam havia saído da Khalenita para conhecer o mundo. O fiel paladino de Anssis estava em uma cruzada de autoconhecimento e prova de seus valores – contudo não havia adquirido a experiência desejada por sua ordem. Conhecera muitos reinos. Aliou-se á alguns homens e mulheres durante sua jornada; muitos deles, mesquinhos e mentirosos. Ninguém que valesse a pena se aliar; Talvez pela absurda sinceridade é que ele se aliara ao mercenário Silvik Nelshirom: um homem simples com desejos simples – ganhar dinheiro a custo do próprio trabalho.

            No início Hikam fora cauteloso com Silvik – o guerreiro pensava muito em dinheiro, gastava ouro com bebidas e festas. No entanto, quando a oportunidade de pegar um trabalho sujo, este recusou de imediato. Aos poucos o paladino da Luz percebeu que havia mais do que uma espada pronta para a batalha no guerreiro: havia coração e lealdade, e isto.

            Nelshirom conseguiu um trabalho para escoltar um comerciante de tapetes em Melgorrona para Trindade. Hikam a principio não gostou da ideia de ir á Trindade durante o Raqaleu. Mas o mercenário o convenceu com facilidade.

            – Muitas pessoas comemorando. Se algo sair do controle, ninguém vai querer se envolver – ele sorriu para o paladino – Ai entramos para salvar o dia.

            A viagem para Trindade prosseguiu sem problemas e já na cidade o guerreiro conseguiu um novo trabalho – Segurança de um bardo na taverna do Alquimista Borracho.

 

* * *

 A taverna do Alquimista Borracho vivia um pesadelo. Carmen Dimitriel havia sido sequestrada. Pajo Lebre, o alquimista, havia chamado alguns de seus guarda costas para investigar. Irritado, ele discutia com o chefe da guarda e o prefeito.

Enquanto isto, Andrius, percebia uma oportunidade – salvar a barda mais famosa do mundo e entrar para a história de Trindade. Mas para isto era necessário investigar o camarim: ele precisava passar pelos guardas.

– Como farei isto? – pensou ele falando alto.

– Deixe isto comigo – Respondeu Morgana caminhando até o meio do salão cheio de guardas e soldados da milícia.

Rapidamente ela encenou um mal estar e foi socorrida imediatamente por Silvik. Os demais homens também trataram de ajudar a bela fada a se sentar e pegar um ar. Enquanto isto Andrius fugia pelas costas destes. Coincidentemente a luz de um dos lampiões refletiu em sua direção, fazendo com que Hikam o percebesse. O paladino decidiu seguir o ladrão ao invés de entrega-lo ás autoridades.

            Andrius chegou ao camarim e tratou de procurar evidencias. Logo foi surpreendido por Hikam, mas este também estava interessado em resgatar a jovem barda, e tratou de guardar a porta para que o trindadiano pudesse investigar o local: havia roupas espalhadas por todos os lados, arranhões de garras, marcas de pegadas reptilianas e muita confusão. Os sequestradores haviam sido eficientes e rápidos e fugido por um duto que passava por baixo do salão da taverna.

            – Vamos embora que tá chegando gente – avisou Hikam.

            Andrius se apressou para sair, mas antes pegou uma amostra da terra que deixara marcas de pegadas no tapete e um pingente dourado em forma de pirâmide.

            – vamos.

 

* * *

 

            Reunidos, Andrius apresentou Hikan para Morgana, Alice e Jirga. Analisaram em conjunto a pista de terra e Morgana avaliou se tratar de terra pantanosa. Só havia um pântano próximo de Trindade, e era um lugar perfeito para sequestro, pois se distanciava de rotas comerciais.

            Hikan chamou Silvik para que este participasse dessa aventura e o mercenário convenceu Andrius que era necessário negociar uma recompensa antes. O paladino não pensava no ouro e desgostou da ideia inicialmente, mas o guerreiro e o ladino o convenceram de que um bom “patrocínio” se fazia necessário para o futuro. Assim eles foram procurar o Bardo de Trindade na taverna do Canto da Sereia – todos na cidade sabiam que este era grande amigo de Carmen.

            Enquanto isto, Alice retirou-se para descansar antes da jornada. Já Morgana e Jirga foram juntar suas coisas. A fada sabia que a nobre maga possuía uma pequena coleção de pergaminhos e desejava fazer uso deste material para a aventura; Jirga não se opôs a ceder alguns – Egoísmo não era um defeito seu.

            Andrius e Hikan conversaram sobre o rapto com o Bardo de Trindade. Era um goblin muito asseado, mas ainda era um goblin. Ele estava muito abalado com o revés de sua colega e não conseguia concentrar-se com os aventureiros. Foi então que Aldresh, o ladrão mais famoso do continente negociou uma ótima soma em dinheiro pelo resgate – agora devidamente ‘patrocinados’ eles partiram para o pântano.

           

* * *

            Como era de se esperar, muitos aventureiros jovens partiram na jornada – um grupo morreu em uma armadilha feita com rochas abaixo de um túnel natural dentro de um barranco. Isto reforçou a ideia de Andrius em manter a cautela. Hikan e Sivirk aguardavam o momento certo para enterrar suas espadas em algo maligno. As duas magas recuavam junto com a druidisa e seu lobo feroz.

            Os rastros levaram até um acampamento de Homens Lagartos. Já havia desconfiança quanto aos raptores da barda e agora pareciam estar no caminho certo. O ladino Andrius tentou aproximar-se sem fazer barulho – péssimo, ele resvalou em algumas pedras e fez um barulho que colocou todos no acampamento de pé – contudo os lagartos recuaram para um feda no lado oposto aos aventureiros.

            Morgana e Alice trataram de procurar vestígios nas barracas. Sirvic ficou de guarda com Jirga – ela se recusara a entrar em alguma daquelas ‘malocas’ -. Enquanto isto o paladino arriscou-se até a fenda; Havia dois homens lagartos jovens, no fundo podia ver algumas fêmeas e crianças: – Aquilo não era um acampamento militar e sim uma tribo aguardando seus machos.

            Hikan tentou negociar informações com os lagartos adolescentes, eles pareciam hostis e muito belicosos para mostrarem os seus valores, contudo ainda eram jovens. E por isto uma mulher lagarto, imponente, saiu da fenda para falar com o paladino. Ela detinha o título de espoas do líder e para o paladino pareceu razoável acreditar em duas palavras: Lizerti era seu nome; a esposa de Givertrix.

            Sirvic tirou o elmo para mostrar respeito: ele já havia lutado contra e a favor do homem lagarto – mas ele preferiu não contar a ninguém sobre isto -. Contudo ele sabia que o guerreiro lagarto era um individuo valoroso e muito forte.

            Lizerti contou que o pântano era dos lagartos e estava lá em paz com os humanos de Trindade há anos. Contudo havia um grande mal, algo que se apoderou do lugar tirando a liberdade de seu povo. Seu esposo havia raptado a barda sim, mas ele trabalhava a favor daquele que lhes roubou o lar: – Parecia simples ao paladino. Destrua o mal e salve a barda.

            Contudo a arrogância, típica de uma rainha, de Lizerti combinada ao pavio curto de Alice causou uma situação vil ao encontro. E quase não acabou em um banho de sangue se não fosse à habilidade diplomática do clédio.

           

* * *

 

            O encontro com Givertrix e seus homens, aconteceu no pior momento: havia outro grupo de aventureiros que o tinham encontrado antes. Os sons de espadas e machados ecoavam por todo lugar. Não tendo lado, os grupos teve que partir para o combate misto. Sirvik entrou derrubando um humano com uma besta logo na entrada. Jirga lhe dava cobertura paralisando-o antes de qualquer reação. Andrius buscava um melhor lugar para atacar, mas parecia que não era seu dia. O lobo de Alice voava hora sobre lagartos e depois humanos. A magia da fada Morgana lançava-se ao alto e chocava-se nas falhas das armaduras de seus inimigos – enquanto Hikan avançava lutando com sua espada.

            Aos poucos o combate triplo mostrou que o último grupo era mesmo o vitorioso, mas durante um embate com uma humana de cabelos curtos e uma letra ‘W’ no rosto – Andrius reconheceu-a na hora – o grande Givertrix morreu junto de sua filha. O único sobrevivente lagarto negociou uma morte de guerreiro por informações: Hikan concordou e fez sinal para Sirvic que puxou a espada e se pós ao lado do guerreiro lagarto ferido e ajoelhado ao chão.

            – A barda foi entregue á um Troll que vive no meio do pântano – ele olhou para Sirvic – Angreifer me recebe em seu lar – gritou furioso e Sirvic o decaptou.

            O corpo caiu e bateu no chão e a cabeça rolou dois passos à frente. Sirvik ajoelhou-se e colocou uma mão no ombro e outra em seu próprio peito:

– Siga as chamas do senhor da guerra meu irmão de batalha. E no futuro lutaremos lado a lado sob a bandeira de nosso deus – falou Sirvic sentindo as palavras. Hikan colocou a mão em seu ombro e abençoou o momento em nome da deusa da luz.

Enquanto isto, não muito afim dos sentimentalismos de guerreiros, Alice e Andrius vasculhavam o local. Havia uma toca onde os homens lagartos estavam guardando seus tesouros. O ladino abriu, mas surpreendeu-se por encontrar a ladra com o “W” no rosto. Ela os intimidou com o olhar, Andrius segurou o braço de Alice que amaldiçoou, em seu intimo, Ixchel por deixá-la tão vulnerável.

A ladra pegou o que procurava e encarou os dois e saiu.

– Fiquem com as migalhas, pois o pão é meu.

Ela partiu. Andrius sentiu que esta não seria a ultima vez que a veria.

 

* * *

 

Investigando o local, Hikan encontrara um colar que Givertrix usava em homenagem a esposa: era um objeto de amor. O justo paladino levou a joia até Lizerti que comovida o presenteou com um colar de conchas que simbolizava o apreço dos lagartos ao humano.

Vasculhando o pântano em busca da barda o grupo fora surpreendido por uma enorme aranha monstruosa. Ela espreitou o grupo de maneira furtiva, e quase pegou Morgana; Mas para sorte da fada Vrendon surgiu e arrancou uma pata do monstro que se refugiou para seu covil. O cavaleiro estava ferido – pela própria aranha mesmo – e necessitava de cuidados. Jirga ficou com ele, enquanto os demais seguiam para o covil. Antes Sirvic se despediu carinhosamente da maga litarminiana – havia amor no ar.

Os aventureiros encontraram um druida lagarto que reconheceu o colar dado ao paladino por Lizerti. Mostrou onde se escondia o troll e ainda usou alguns de seus incensos para recuperar os ferimentos de todos: Inclusive Vrendon.

Agora o grupo estava pronto para o Troll.

 

PERSONAGENS

Hikan – Daniel Ribas

Andrius – Alex Silva

Morgana – Melissa

Alice – Rafael Morais

Prelúdio II – Aventura A Última Balada

Trindade 7 de Rusmoer

 

Vrendon e seus companheiros saiam da taverna de Örülty & Õrülten cambaleando bêbados e cantando.

Somos cavaleiros animados

Nossas espadas nunca estão de lado

Erguemo-las com fervor

Estaremos com Guelrom onde for

 Com meu escudo e a bandeira

Estou sempre a vigiar

Nesta batalha de qualquer maneira

Nós temos que ganhar

 Já faz muito tempo que estou a lutar

Cavaleiros de Guelrom são sempre mais

Por isto cantamos com o coração

Entregamos nossas vidas com gratidão!

 

O escudeiro chama a atenção do líder dos cavaleiros:

– Vrendon! Olhe aquilo – ele aponta para um movimento suspeito de quatro homens encapuzados carregando uma pessoa desacordada: parece uma dama.

Vrendon faz sinal para que os demais parem de cantar. E acompanha a movimentação para fora da cidade. Ele chama um dos companheiros.

– Elshen! Leve Irven e Lontos e pegue os cavalos. Me encontrem na saída da cidade – ele chama os demais com a mão – Sigam-me os demais. E homens – todos olham para o cavaleiro – Acabou o Raqaleu para Guelrom!

Os soldados quebram suas garrafas no chão e largam as longas todas que escondiam suas armaduras e sacam suas espadas.

– Guelrom sempre em vigília – Eles gritam e voltam a cantar na direção de sua missão.

* * *

            O pântano fétido traz recordações ruins para Vrendon, mas ele não se preocupa com isto. Um dos soldados descobriu que a barda Carmen Dimitriel havia sido sequestrada de dentro de uma das tavernas mais seguras: Alquimista Borracho. Na hora ele lembrou-se da fada dançarina – Ela fala que iria para esta taverna – mas não perguntou nada. Ela parecia ser do tipo que sabia cuidar de si mesma.

Os cavalos galopavam lentamente, por cautela. Girga o escudeiro ia ao lado do cavaleiro atento á armadilhas e emboscadas. Os demais, recuados, se posicionavam em uma formação precavida.

À noite não lhes favorecia então Vrendon ordenou que fizessem uma parada e um acampamento.

– Perdão senhor – Disse Irven, o ganancioso – Não é uma boa ideia acamparmos assim. Aqueles que levaram a refém devem estar em movimento agora.

– Se estivessem em movimento já teríamos esbarrado neles – responde o cavaleiro com sabedoria – As dificuldades da noite também prejudicam o inimigo. E aqueles que são beneficiados pelas trevas terão seu revés ao amanhecer: quando estaremos mais fortalecidos – Ele bate a mão no ombro de Irven –. Ás vezes jovem Irven filho de Nartis: é preciso ser paciente.

– Movimento se aproximando – comenta Galion observando do alto de seu cavalo um grupo de dez pessoas vindo com tochas na direção do pântano.

– Mercenários em busca de recompensa pelo resgate – Comenta Irven temerário – Agora devemos nos adiantar ou ficaremos sem nada.

– Sem nada? – Indaga Vrendon – Não estamos nesta pela recompensa. Estamos nesta por que é o certo a se fazer.

Irven olha para baixo envergonhado.

– Não se envergonhe jovem Irven. Prefiro que pronuncie a verdade que não quero ouvir, a que mentiras que quero ouvir – Ele olha para os demais soldados – Certamente seremos recompensadas pelo resgate da barda. Mas quero que lutem sempre da mesma maneira: Seja para resgatar a costureira ou a princesa. Este o legado de nosso povo – ele mostra o escudo do leão alado – Que a Honra sobreponha a glória e a sabedoria sobreponha o ouro. Pois somos…

– Cavaleiros de Guelrom! – Gritam todos erguendo as espadas para o alto.

Aventura – A Última Balada – Sessão I

            Andrius estava um pouco perdido em seu primeiro Raqaleu de Trindade. Quando entrou para a guilda dos Trapaceiros Peçonhentos, jamais imaginara que ela, assim como as demais, estava acordada com a milícia do governo – Era um esquema de corrupção grande e meticuloso que acabava com o charme ladino que ouvira contar nas antigas historias nas tavernas.

            Mesmo assim ele precisava de dinheiro. Ele passeava pela taverna de Örülty & Örülten procurando alvos fáceis: Um mago aspirante (um tanto afeminado) em uma mesa cheia de mulheres era uma boa alternativa para o inicio do festival – havia uma maga mais atrativa, aparentava ser muito mais rica, mas ela utilizava uma algibeira Mordedora: Maldito seja Aysmin.

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            Mesmo assim o ladino furtou ligeiramente a algibeira do rapaz-moça. Rapidamente ele observou que na mesa havia ainda uma fada, aparentemente maga também, e uma ruiva nohëan que parecia ter saído de dentro de uma caverna – se desvirtuava totalmente da mesa, contudo elas poderiam servir á um proposito.

            Havia uma competição, uma gincana, que prometia testar as habilidades especiais de um grupo de pessoa, concorrendo á um prêmio gordo: 500 coroas de platina. Andrius não tinha um grupo e precisava aproveitar esta oportunidade. Ele pegou a travessa de comida e bebida que serviria esta mesa e sentou com elas – Digo eles! Pois havia um… bem elas!

            Usando de toda sua lábia, o ladino logo viu que Liendro, a moça o homem da mesa, não seria útil para a gincana. Jirga era uma nobre de Litarmina, tão rica que o valor do prêmio não a convencera. Alice a druida, ruiva, nohëan (que parecia estar participando de uma experiência social naquela mesa) se interessou rapidamente pela grana – Ela deve ser tão pelada quanto eu – pensou Andrius. Já Morgana, a fada, se interessou se desinteressando; mas por fim decidiu-se indecisa, mesmo assim seguindo em frente.

            Faltavam duas pessoas para o grupo. Enquanto Andrius pagava a inscrição com o dinheiro de Liendro (e pagava o imposto aos milicianos pelo assalto realizado) as garotas utilizavam seu sex appeal para recrutar mais duas pessoas: no entanto Alice não possuía grande habilidade sedutora, já Morgana possuía o ódio de todas as mulheres de Digared (e Irth, Westeros, Terra Média, Ravenloft, etc…) por ser uma linda fada, e não conseguia se aproximar com facilidade dos homens.

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            Felizmente havia uma mesa com cavaleiros de Guelrom, todos homens – não homens como Liendro – que cantavam:

A vitória persegue o belicoso,

Tem que ter coração e corpo inteiro!

Cavaleiros de Guelrom

São aqueles que não te abandonou

Essa é tua sina,

Esta é a tua gente,

Que luta sempre não importa o que virá!

Cavaleiros de Guelrom

Cavaleiros de Guelrom

            Morgana viu uma oportunidade e logo se aproximou de Vrendon, o líder dos cavaleiros que estavam na mesa. Vrendon se interessou rapidamente pela fada e pediu apenas uma dança para que entrasse no grupo. Inocente – ou não – Morgana subiu na mesa e dançou para os cavaleiros a música de Guelrom.

            Enquanto isto Alice achou um menino de treze anos, bastante rápido que ganhava as apostas dos bêbados no arremesso de dardos.

            O grupo estava pronto. E os cinco desceram para enfrentar a gincana.

            No entanto os cadastros estavam encerrados; os organizadores não queria aceitar a inscrição do grupo de Andrius. Enquanto ele argumentava, percebeu que os organizadores estavam babando por Morgana, que aconselhada por Jirga havia removido o manto caro de lamormy e permanecido apenas com um leve short de seda fino e uma blusa branca.

            – Ela está no grupo de vocês? – perguntou um dos homens da gincana.

            – Sim – Aproveitou o ladino – o nosso grupo se chama Fada de Trindade.

            Os dois homens se olharam rapidamente: – Vocês estão dentro!

            Os seis grupos estavam apostos para gincana: Claymorianos da Gema (cinco claymornianos), Assaltantes da Princesa (um grupo misto, liderado por uma mestiça de orc chamada Princesa), Inimigos do Ponei (cinco anões beberrões), Bêbados Ingloriosos (um grupo misto, mas aparentemente de verdadeiros aventureiros) e Fada de Trindade.

            O jogo começou e os ‘especialistas’ de cada grupo entravam em uma gaiola lateral onde tinham que ir abrindo fechaduras e soltando armadilhas, além dos próprios integrantes que entravam acorrentados. Inicialmente os Bêbados Ingloriosos levaram uma vantagem e o grupo da fada parecia não ter chance alguma. No entanto Alice e Morgana se arriscaram em uma armadilha, ainda armada, para ganhar tempo, e conseguiram igualar o jogo para o grupo. E após algumas armadilhas, destruição de pratos e espantalhos, fechaduras trancadas e até a cura de um boi ferido, o grupo chegou no final ao mesmo tempo que os primeiros, mas devido a astucia do anel de fogo de Jirga, emprestado a Morgana, eles conseguiram acender a tocha final sem a necessidade de escalar – vencendo assim a gincana.

Alquimista Borracho

            Vitoriosos e mais ricos, o grupo ainda ganhou um passe livre nas melhores tavernas de Trindade, e claro, se dirigiram para o Alquimista Borracho a tempo de ouvir o show de Carmen Dimitriel.

Prelúdio I – Aventura A Última Balada

Trindade 7 de Rusmoer

Taverna do Canto da Sereia,

            Uma belíssima mulher, carregando uma garrafa, cruza o salão do bordel em direção á última mesa. Três homens jogam cartas; Um sabe jogar os outros participam. Ela senta na perna esquerda do jogador, um mestiço branquelo, cheio de olheiras e com cheiro de bebida forte. Puxa o copo vazio e o enche de aguardente, entregando ao mestiço. Um dos homens, irritado, joga as cartas na mesa. O outro faz uma careta preocupada e mostra um ‘Cavaleiro de Fogo’, mas o mestiço sorri frustrando suas ambições e largando sobre a mesa ‘Cavaleiro de Terra’.

– Pela primeira – diz ele para o homem que paga a aposta; Treze coroas de ouro.

– Tua fama o precede na Trilha – reclama um dos sujeitos em tom recalcado – Sir Aldresh.

Ele sorri para os cavaleiros, e passa as cartas para o homem que acabara de saudá-lo; um sujeito negro de baixa estatura, mas grande barriga pudesse embaralhar.

– Apenas Aldresh – Ele prepara uma erva no cachimbo, mas é impedido pela moça em seu colo que o puxa de sua mão e acrescenta outras duas ervas em sua pequena algibeira. Ele sorri para ela e prossegue falando – Sou tão cavaleiro quanto os quatro cavaleiros deste baralho.

            – Eu não entendo este jogo – Comenta a meretriz que acende o cachimbo, traga e passa a fumaça inicial para dentro da boca de Aldresh. Ele prende a respiração, e deixa a fumaça sair pelas narinas. Ela olha para as cartas no baralho – Acho muito complexo.

            – Não… é complexo – Aldresh tosse um pouco – É na verdade muito simples – ele tosse novamente e estica a mão pedindo o baralho. Rapidamente ele percebe uma movimentação na entrada do estabelecimento – São quarenta e duas cartas. Elas são divididas em quatro elementos: água, terra, fogo e vento. Cada conjunto possui igualmente dez cartas numeradas de um á cinco e uma sequencia de figuras assim – ele puxa quatro cartas do baralho e joga sobre a mesa: uma mulher com uma tocha, um sacerdote com uma taça, um cavaleiro em um Pégaso e um rei frente uma árvore – A camponesa vence as cartas numeradas, o sacerdote vence a camponesa, o cavaleiro o vence, e por fim o rei vence todos.

            – E a décima carta? – questiona ela contando as cartas na mesa.

            – A décima cara é o louco, o bobo ou o coringa – ele mostra uma carta de um palhaço fazendo malabarismo com fogo – Depende da região ele tem um nome diferente. Ele vale zero. Não ganha de nada. A não ser… – Aldresh puxa mais duas cartas e joga na mesa – Que você jogue esta carta no inicio do jogo: as trevas.

            – As trevas muda a ordem – comenta um dos homens na mesa, um sujeito alto e magro cheio de ouro e com dois dedos a menos na mão esquerda – Você ganha quatro cartas no inicio do jogo e refuga uma. A qualquer momento você pode lançar ela se ela for às trevas. Assim altera a ordem o louco pode vencer o rei ou qualquer outra carta.

            – E a Luz? – ela questiona enquanto olha a última carta na mesa, um espelho dourado iluminado – Para que serve?

            – Só para cancelar as trevas – Responde o baixinho gordo – Se torna muito útil às vezes.

            Ela balança a cabeça e sorri e entrelaça os braços atrás do pescoço de Aldresh:

            – Tu tinhas razão. Não é complexo – Ela sorri – é muiiiiiiito complexo.

            Os quatro dão gargalhadas, até que chegam mais três pessoas a mesa: uma mulher belíssima trajada em um vestido de seda amarelo; Um goblin com cabelo lambido, calças de cetim e jaleco verde e dourado; e um loiro, almofadinha, vestido em um traje nobre, vermelho – um pouco ostentativo.

            – Aldresh Bayer dyn Lyn – Fala o goblin sorrindo, com seu dente de ouro e abrindo os braços – Como ousas entrar em minha cidade e não ir me visitar.

            – Bardo de Trindade – a cortezã levanta e Aldresh salta para abraçar o amigo nanico – Cada ano que passa tu parece mais jovem, infeliz – comenta enquanto chega-o – No entanto continua feio.

            Todos dão gargalhadas.

            – Quando a beleza do mundo nos cerca os olhos, não precisamos ostentar o belo no espelho – responde o bardo sorrindo.

            – Continua poeta – Aldresh debocha se sentando, a meretriz faz sinal para uma moça trazer as bebidas.

            – Poeta nas palavras apenas – Comenta a bela que o acompanhava – mas continua compondo porcarias.

            Todos dão gargalhadas.

            – Minha cara – responde o goblin se sentando ao lado do amigo e adjacente a ela – Uma sabia – ele sorri para Aldresh – uma linda sábia me disse que a diferença da música para a vida é que a primeira é tolerável. Eu ao contrário acho a vida uma dádiva – ele beija os dedos da mão direita – Logo componho notas insuportáveis, apenas para contrabalancear.

            Todos dão gargalhadas.

            – Bela sábia – Sussurra a meretriz no ouvido de Aldresh – Deve enciumar-me?

            – Todas as mulheres devem enciumar-se de Aldresh, e nenhuma deve assegurar-se a tê-lo. Pois tu podes prender o canário em uma gaiola. Mas a excitação matinal de ouvi-lo em sua janela não terá o mesmo sabor? – sorri o goblin para o amigo que ergue o copo em saudação – Desculpe-me! Um bardo deve ter um ótimo ouvido – ele pega o cálice de vinho trazido por outra moça e sorri para a acompanhante do mestiço – E não ser nada discreto.

            – Aldresh – fala a moça do vestido amarelo – Talvez um o mais famoso sedutor do continente – ela sorri bebendo do vinho recém chegado.

            – É por que tu não viste Wesnayke de Claymor – comenta Aldresh – Doze anos se aventurando com o andarilho. Uma mulher em cada reino.

            – E ao que dizem um bastardo em cada mulher – comenta o goblin.

            – Isto não é verdade – Aldresh corre em defesa de Wesnayke – Ao que eu sei a menina em Semlya teve gêmeos.

            Todos dão gargalhadas.

            – Desculpe-me amigo, não lhe apresentei – fala o Goblin apontando para a moça de vestido amarela.

            – Carmen Dimitriel – Interrompe Aldresh.

            – Que honra, reconhecida pelo grande Aldresh dyn Lyn – Responde Carmen com sorriso sibilante, arrancando uma careta de Larmilla, a cortezã.

            – Sou um fã da música boa – responde o mestiço para a barda famosa – Pelo menos alguém nessa mesa sabe cantar…

            – mas daí é sacanagem – reclama o goblin.

            Todos dão gargalhadas.

            Duas horas depois,

            Sete jarros de vinho e inúmeras ervas nos cachimbos.

            O almofadinha acompanha atento a conversa jogada fora na mesa. E resolve ele puxar papo.

            – Sete dias de Raqaleu, a milícia de Trindade atenta aos roubos contra turistas – Ele olha sério para Aldresh – e como um dos três melhores ladrões do mundo está em nossa mesa?

            Silêncio.

            Aldresh traga um pouco da erva nova. Uma fumaça rosa sai do seu nariz e seus olhos se agitam quase lagrimejando. Ele sorri para Lugerond.

            – Bem meu amigo pelo que me recordo – ele olha para os dois homens com quem jogava trilha – Corrijam-me se estou errado, mas quem chegou à mesa primeiramente fui eu. Acredito que tu estás em minha mesa – ele sorriu, Legerond ficou atônito – Contudo, podes ficar tranquilo, pois estamos no Raqaleu. Estou de folga.

Todos dão gargalhadas.

            Os dois se encaram por um momento. O loiro levemente contrariado, Aldresh no seu melhor estilo deboche.

            – Os bardos são os culpados – Lugerond larga as palavras no ar buscando mais atenção, imediatamente Carmen e o goblin o encaram incertos – Nossa sociedade cultua estes ladrões como se fossem heróis – ele bebe o vinho um pouco mais deliciado – Certos estão os Claymornianos que cortam as mãos dos ladrões – ele sorri para Aldresh que retribui o sorriso com um olhar crápula.

            – Claymor está certo? – Aldresh sorri – os mesmo claymornianos que expulsaram os ilitas do sudeste para o norte? A proposito, tu és descendente de ilita não é? – Aldresh ri para ele – Mas o que falar de você Lugerond. O que tu és mesmo? Jornalista? Da Gazeta Helenaryana…

            Silêncio.

            – Para teu conhecimento, meu “amigo” mestiço. A Gazeta Helenaryana possui um compromisso com a verdade. Moldamos o pensamento do norte, somos a voz popular – Lugerond agora parecia mais desgostoso.

            – Andei por todo este continente. Não preciso de aula. E pelo que li e conheci da Gazeta Helenaryana a sua única verdade naqueles pedaços de papel é a data.

            Todos dão gargalhadas.

            Lugerond saiu irritado da mesa.

            – Trilha? – Falou Aldresh para o Bardo de Trindade, Carmen e os demais na mesa.

            – Vamos lá – Todos falam.

Seção I – Aventura: Ascenção Lendária

‘Não serão todas as coisas engolidas pela morte’

– Platão

                DIGARED 1576 e.d.vm.

               SEMLYA,

O quarto era fechado, em janelas, um porão úmido e escuro adaptado como quarto, nada mais que isto. Era o que eles precisavam naquele momento. Ele olhou para Vorik, sua irmã caçula, deitada de bruços sobre um colchão quase sem capa e sem lençol jogado num canto do aposento.

Ela dormia com os olhos serrados e o corpo acusava o cansaço da última missão para a guilda dos Ladrões de Ditrix – Não era vida para uma garota tão jovem! – pensava ele, mas o pensamento logo se extinguiu quando ele se lembrou de quinze anos atrás: Vorik era apenas um bebê, frágil e indefeso. A mãe deles era uma escrava em Largan e seus filhos eram condenados com o mesmo destino. Na noite mais fria do ano ela fora convocada ao quarto do senhorio que alcoolizado violentara e espancara a mulher até quase a morte; Ele vira tudo! Era um jovem, uma criança de dez anos, mas sabia que não era este o futuro que queria para sua irmã. Ele fugiu naquela mesma noite, apenas com a roupa do corpo e Vorik em seus braços enrolada em uma manjedoura. Atravessaram o cais de Largan e esconderam-se numa embarcação. Um marujo gritou – Parada final Semlya! – E o marujo sentenciou o futuro das duas crianças.

Os primeiros roubos foram na própria embarcação, apenas para alimentação sua e dela. Já em Semlya ele passou a bater carteiras para comprar leite, depois arrajou uma senhora para cuidar da bebezinha enquanto trabalhava. Os primeiros anos foram difíceis, mas aos quinze anos ele já pertencia a guilda e já fazia missões mais perigosas. Seu nome, entre os ladrões, era conhecido por ELE. Entre os guardas era temido por AQUELE. Para Vorik era Mano, e foi por admiração á ele que Vorik entrou para guilda ainda na adolescência.

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A porta, e única saída do porão, se rompeu, tirando Ele dos devaneios do passado. Vorik saltou do colchão e puxou a adaga para se defender.

– Mano! – Exclamou ela nervosa, enquanto Ele buscava abrigo no quarto. Os passos ecoavam nas escadas. Ele puxou Vorik para um canto e a escondeu num vão por baixo da escada – Mas… – A retrucou, mas Ele fez sinal de silêncio.

Sete sujeitos entraram no aposento, a menina enxergou apenas as sombras gigantescas aumentadas pela luz do lampião. Eles gargalhavam e Ele apenas os observava com o manto negro de seda grossa fechado na frente do peito enquanto mantinha os braços cruzados.

– É o seu fim Ele! – Ameaçou um homem puxando a espada. Logo os demais seguiram o mesmo exemplo e sacaram suas espadas e machadinhas e partiram para cima de Ele – Morra ladrão! – Gritou o homem em ameaça, enquanto corria na direção dele.

Ele se esquivou do primeiro golpe com agilidade, o segundo tentou golpeá-lo no alto, mas ele se abaixou com facilidade e rolou para frente escapando dos próximos cinco golpes ao mesmo tempo. Então Ele ficou de pé, os homens voltaram-se novamente, mas o ladrão sacou dois sabres prateados e reluzentes e se preparou para o combate.

Eles hesitaram por um momento, mas logo se colocaram novamente na ofensiva. Dessa vez Ele não esperou o primeiro golpe, mas golpeou com um corte na garganta do primeiro ofensor. O segundo tentou lhe atacar pelo flanco esquerdo, mas Ele rebateu com o segundo sabre e revidou com o primeiro arrancando seu braço. Dois recuaram e um ameaçou fugir, mas os dois demais vieram enfurecidos para cima dele. Os golpes eram fortes, mas sem direção, Ele só teve o trabalho de ficar de lado e evitar ambos os golpes ao mesmo tempo. Passou por entre os adversários e cravou as laminas, simultaneamente, em seus rins e depois puxou os sabres; Os dois caíram no chão agonizando em dor. Ele correu na direção dos dois homens que recuaram, eles prepararam a defesa – Inutilmente – Ele era muito rápido e saltou sobre o primeiro, usou o joelho do homem como trampolim, virou um mortal sobre ele e passou a lamina em suas costas e caiu frente a frente ao outro homem. O homem com o talho nas costas caiu no chão e o de sua frente ergueu a arma para se proteger, mas Ele se abaixou e fez dois cortes rápidos em seu ventre; A arma do homem caiu no chão e suas entranhas seguiram o mesmo destino.

O homem que ameaçara fugir correu para as escadas, mas Ele correu na direção da parede, pisou nela, e correu desafiando a gravidade e chegou ao topo da escada primeiro. O homem se apavorou e se desiquilibrou, mas Ele não deixaria a queda lhe tirar esta vida: sentou as duas laminas na garganta do sujeito e a cabeça chegou antes do corpo ao chão.

Vorik saiu das sombras e olhou admirada para o irmão. Ele sorriu para ela e disse: – Vamos não temos muito tempo – esticou a mão para a irmã e os dois fugiram, mais uma vez.

Seis meses depois, a ladra contava a história para Barbellus, o líder da guilda. Ele ouvia atencioso sentado a sua frente na taverna do Espinho Saltador, a taverna mais próxima das docas de Semlya.

– Não entendo como alguém pode ter matado um deus! – Terminou ela, olhando para a janela, que embora suja ainda refletisse os traços saudidios de seu rosto.

Barbellus segurou a mão de Vorik com ternura, tinha a garota como a filha que nunca teve. E por isto quando soube da morte de Ele resolveu que era ele quem deveria dar a noticia para a garota.

– Ele era o melhor de nós – Falou o velho ladrão com pesar – Fez coisas inimagináveis e enfrentara desafios jamais vistos pela maioria de nós – Ele relutou um pouco quase não aguentou a emoção ao falar do amigo, mas era preciso ser forte na frente de Vorik – Mas ele conquistou muitos inimigos neste tempo.

Vorik debruçou-se sobre os braços e lamentou sobre a mesa. Chorou pelo irmão, pelo pai, pelo mestre: Ela tinha estes três homens num só, mas perdera os três também de uma única vez.

– Entenda garota – Falou Barbellus em tom reconfortante – Ele depositava muita fé em ti. Certamente Ele gostaria que tu fosses forte agora!

– Me deixe em paz! – Gritou Vorik saindo de supetão da taverna.

MELGORRONA

Homens morriam todos os dias em qualquer parte do mundo. Mas na arena de Melgorrona, a Morte era sempre a convidada de honra. A morte parecia fazer sentido lá, mas ao mesmo tempo, era carregada por um sentimento de impotência e inconformidade.

Quando Oberyn foi vendido como escravo para o lanista Tirineus de Belerom, poucos acreditavam que o magricelo saudidio de dez anos se tornaria um dos campões de Megorrona.

Melgorrona

Mas ele treinou, ele se submeteu a todos os desafios. Nunca reclamou nunca se revoltou e isto cativou Tirineus pai de sete filhas e nenhum filho. Os outros lanistas sempre o avisavam: – Saudidios são bons em obedecer, mas não possuem fibra de gladiador. São bons para alimentar leões, mas na hora da luta eles fraquejam frente á um gladiador bárbaro mais experiente. Mas Oberyn surpreendeu este preconceito e derrotou todos os desafiantes no primeiro ano de arena, isto ainda com quinze anos. Aos dezesseis era desafiado pelos melhores gladiadores dos demais lanistas, mas sempre saiu vitorioso.

Tirineus brincava: – De alimento de leão para devorador de leões – gritava na arena para os demais lanistas. E a massa que acompanhava os embates na arena passou a gostar da frase e adaptou o nome do saudidio para: ‘Nigerleo’, o Leão Negro, por causa de seus cabelos lisos e negros como a noite.

Tirineus se afeiçoou o rapaz e resolveu tira-lo da arena. Passou a usa-lo como seu guarda costas pessoal. Pagou para que os tutores lhe ensinassem a ler e contar e lhe deu até algumas posses em tesouros. Nigerleo foi convocado pelo exercito do decado para defender Melgorrona em nome da casa de Belerom. Sofreu preconceito por ser de origem escravo, mas logo sua espada passou a romper os grilhões do preconceito e Nigerleo se tornou InteritusLeo, o Leão Destemido.

Oberyn retornou para Melgorrona no dia do aniversário de sua maioridade, mas não encontrou Tirineus de Belerom – A coroa de Claymor acusou a casa de Belerom de conspiração contra o Imperador e ordenou a decapitação dele e a escravização de todas suas filhas e esposa. Os escravos foram divididos entre os lanistas rivais. Porém Oberyn foi libertado por Tirineus e o documento era anterior à ordem do Imperador e agora ele era um homem livre.

DÜVIKBURG

                Sibilie foi convocada pelo seu mestre druida Gerharty, “o Espirito Ancestral de Bärkrieger”, a ela fora confiada à missão de trazer de volta o filho de Wieland Ungestüm, “A Espada que nunca dorme de Bärkrieger“. Sibilie era uma druidisa jovem e sabia que a tarefa, embora simples, era de notoria importancia para seus anseios futuros dentro da comunidade dos Nohëans.

Durviki

Ela viajou cinco meses, acompanhada de seu lobo Wisky, a procura de noticias de Willian filho de Wieland de Bärkrieger, mas apenas noticias vazias e desencontradas se apresentavam a ela. Quando sua esperança e fé pareciam questionáveis, foi que os deuses mostraram o caminho para Sibilie: Em Megïrom, o reino da maçã; Ela saboreava uma taça de um belo vinho adocicado de maçãs megïn quando a taça virou sobre a mesa e uma gota dançou sobre seu mapa e parou sobre a cidade de Semlya – Um bom augúrio – pensou ela saboreando o final de seu vinho e partindo na mesma noite para a cidade estrangeira.

Na saida de Megïrom, a taverneira Lhiana, com quem a druidisa fizera amizade durante a festa da maçã, se despediu com saudosismo fraterno.

– Leve contigo o vinho de Megïriom para que aqueça teu sangue no inverno que se aproxima minha amiga – Falou Lhiana enquanto guardava a garrafa na mochila de Sibilie e a abraçava com força.

– Sinto que os deuses não deixaram que os ventos de nossos destinos mantenham-se separados para sempre nesta vida minha amiga de pele rosada – Comentou a druidisa agradecendo o presente com um abraço.

– Tome cuidado com as estradas do norte de Semlya – Falou a taverneira com temor – Ouvi histórias ontem de um bárbaro errante que anda causando alvoroço por onde passa.

– Bárbaro? – Resmungou a nohëan com receio – Será o jovem Willian que procuro?

– Não – Respondeu a taverneira com certeza vaga – Ouvi seu nome algo como Zirstauer! – Falou agora com dúvida.

– Não deve ser importante, nunca ouvi falar – falou em tom de deboche – Tenho que pegar a estrada Lhi. Até o futuro.

– Até o futuro, que os deuses iluminem os teus caminhos.

Sibilie se despediu e seguiu para Semlya.

barbaro

O caminho foi tranquilo e graças a ajuda das estradas bem sinalizadas do leste do continente, não houveram complicações para que chegasse ao seu destino. Parou as margens do rio Laitaw e bebeu um pouco de água. Um nome lhe veio a cabeça: “Zirstauer“ – Realmente nunca ouvira este nome – Bebeu mais água, mas foi surpreendida por um rasante de um corvo que parou sobre uma rocha a beira do rio – Mau augurio pensou ela – o corvo não tinha o olho esquerdo e parecia ter algumas penas queimadas. Ele olhou para ela e depois para a estrada que levava ao norte em direção de Laphömy. Não era o seu destino por agora, talvez passasse por lá na volta para Düvikburg; Sim era possível que seguisse o caminho do litoral até Neabline e evitasse os estradas do centro que levavam ao caminho da serra de Lemúria. Ela lembrava-se das historias de Zerstörer…

– Zerstörer! – Muito parecido com Zirstauer pensou ela – Como não lembrei de Zerstörer. Mas não pode ser ele…

Sibilie se apressou, enxeu o cantil com água de rio e atravessou na direção da estrada para Semlya, a leste da estrada para Laphömy. O corvo voou para o norte – Mau augurio – Pensou ela novamente.

A AVENTURA COMEÇA EM SEMLYA

Willian já havia partido de Düvikburg á dezoito meses e já sabia que não retornaria para a terra natal. Não conseguiu os feitos nescessários para orgulhar seu pai. Tampouco era fácil superar o grande Wieland Ungestüm que unira os povos nohëans, que lutou ao lado do grande Klaus Krüger o “Demigod“. Havia derrotado o Impronunciável, as harpias de Berg Darkness, a hidra de cinco cabeças do rio Vrontarlle. E tantos outros feitos que somavam-se a vitória sobre Skremmende Død, o dragão negro.

Não Willian ficaria longe das terras Nohëans por um ou mais dois anos, até se sentir digno de retornar, olhar nos olhos de seu pai e dizer que seu destino é o de um caçador e não o de um líder.

Willian bebeu mais um gole de seu vinho quando viu um jovem saudidio armadura com emblema de um leão, entrar na taverna do Pingo Seco. O guerreiro olhou sério para a direção do jovem Nohëan e sentou-se num canto.

semlya

Vorik acreditava ter superado o luto por seu irmão e lutou muito com Barbellus para conseguir uma missão. Ela sentiu que o velho lhe dera uma missão muito simples: conseguir dois crânios no mausoléu noroeste do cemitério antigo de Larkath, mas ela queria espairecer as ideias e também precisava de ouro para manter-se. Ela foi seguida pela novata Tori que insistia em uma aliança. A saudidia não gostava de Tori que era muito estabanada e metida a sedutora, mas ela precisava de um grupo e a neófita tinha um plano.

Tori procurou homens com armas na taverna do Pingo Seco, encontrou dois: um saudidio livre e um nohëan errante – Perfeitos estrangeiros de terras distantes que não conheciam a história de Semlya.

Willian foi seduzido por grandes promessas da ladra, mas Oberyn previu o golpe, mas resolveu pagar para ver o que se desenhava em seu futuro. Willian ainda fora surpreendido por uma jovem nohëan ruiva, acompanhada de um lobo simpático, que veio a sua mesa fazer uma interessante pergunta:

– Tu és Willian filho de Wieland Ungestüm?

– Sou – respondeu ele, logo se dando conta da desatenção de uma pessoa que está foragida da terra natal.

– Obrigada! – saiu Sibilie triunfante com a missão cumprida.

Não havia outra saída para o ranger nohëan, se não convencer a druidisa participar da aventura. Com a condição é claro, que ele retorna-se para o norte com ela. Ainda antes de partirem, Willian foi procurado pro um sujeito estranho: um velho ilita de calvo que lhe prometeu uma grande recompensa em ouro se ele trouxesse consigo o cajado de Myskara que estava perdido em algum lugar no mausoléu do antigo cemitério. No entanto Willian guardou o segredo da missão dos demais, dividindo apenas com sua conterrânea.

O grupo estava pronto: duas ladras, um guerreiro, um caçador, uma druidisa e um lobo.

    O Cemitério Antigo de Larkath

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O grupo não teve dificuldades para encontrar o Cemitério antigo. Os guardas que protegiam a entrada se retiraram no inicio do crepúsculo. Uma vez dentro da necrópole eles se atrapalharam com a iluminação das tochas e rapidamente foram cercados por uma horda de mortos-vivos. Tori abandou o grupo e fugiu. Oberyn tentou lutar contra as criaturas, mas logo foi cercado e teve sua bela armadura danificada pelas garras fúnebres dos inimigos. Sibilie liderou o recuo do grupo, mas eles esbarraram em um portão fechado por Tori que sumiu na escuridão do cemitério.

Vorik amaldiçoou a novata e prometeu sua cabeça no futuro.

Willian gritou para que a ladra liberasse o portão ao invés de brigar com a rival, e foi o que a garota fez abrindo a fechadura do portão.

Sibilie usou a força da natureza, quase que escassa e morta no local, para curar os ferimentos de Oberyn.

Os heróis vagaram pela ala nobre do cemitério, não menos danificada pelo tempo e saques. Antigamente esta ala serviu para guardar os corpos dos heróis mortos na antiga guerra dos magos, mas em 995 o duque de Ilisted havia removido todos os corpos para o cemitério novo do outro lado do reino e a região agora servia para laboratório dos magos negros de Vrantek. Embora esta informação fosse conhecida por quase todos em Semlya, o grupo mantinha-se ignorante a estes fatos.

Vorik perseguia o encalço de Tori com a sede da vingança na ponta da faca, mas era Oberyn que liderava o grupo com sua espada em punhos. E a iniciativa de tomar a dianteira por parte do guerreiro saudidio, quase tornou-se uma tragédia, se não fosse por Willian e seus olhos nohëans de caçador que percebeu uma armadilha de dardos envenenados deixada no caminho. Vorik olhou com cuidade e acusou: – Tori! – Parece que a ladra realmente não estava para brincadeiras.

Finalmente o grupo encontrou o mausoléu de Myskara. O ex-gladiador lembrou-se das histórias de Tirineus sobre a maligna maga e advertiu a todos.

Vorik falou que os crânios deveriam estar lá dentro, assim como Tori. Sibilie olhou para Willian quando leu sobre percebeu de quem se tratava o mausoléu, mas o ranger decidiu ainda assim guardar o segredo. E assim, Willian, ele entrou descuidado no sepulcro e foi atingido em cheio por uma armadilha de lanças em seu peito: Uma armadilha de ladrão percebeu Vorik com ódio. Sibilie acudiu-o como pode, enquanto os demais vasculhavam a área. A ladra encontrou os crânios de sua missão, mas decidiu acompanhar os demais para encontrar Tori. Percebendo um rastro na entrada de um túnel, a ladra correu para descer as escadas, mas foi surpreendida por óleo escorregadio em seus degraus – Um erro que seu irmão jamais a perdoaria, mas o ódio pela rival tirava a concentração dela.

Sibilie novamente foi acudir um companheiro ferido. Enquanto isto os demais desciam a escada com cuidado redobrado. Tori não estava de brincadeira e certamente havia traído o grupo e três situações. Enquanto aguardavam a recomposição da ladra, Willian, novamente com seus olhos treinados de caçador, encontrou um desnível na parede do corredor. Dessa vez, dividiu com os companheiros a informação. O grupo se esforçou em conjunto, pela primeira vez, para abrir a passagem que levava á uma nova câmara.

A câmara parecia um laboratório arcando com prateleiras de livros, altar exotérico e prateleiras com diversas poções exóticas. O sangue saudidio de Oberyn pulsou ao ver uma grande e cara tapeçaria; ele não perdeu tempo e passou logo a enrola-la: Era o seu tesouro até então. Sibilie foi até os livros e passou a procurar algo de valor: encontrou alguns livros raros e um grimório arcano; Resolveu guarda-los em sua mochila. Já Willian adente vê-se as poções, mas ficou indeciso frente a elas. Mas foi Vorik que partiu para o altar; Rapidamente ela se vislumbrou um caldeirão exótico e espiou para dentro: – Um olho! – Pensou ela, mas sua visão escureceu e ela perdeu completamente todos os sentidos.

Wisky, o lobo, grunhiu para Vorik com medo. Sibilie olhou para a companheira e arriscou:

– Vorik?

Ela não falou nada, apenas começou a rir degenerada e sibilou: – Eu voltei!

(continua…)

Narração e Criação – Vinicius Lopes

Interpretação

Oberyn – Jailson Nascimento

Sibilie – Mel

Vorik – Julia Hernandes

Willian – Bruno Hernandes